O colunista Tony Goes escreveu no seu blog um artigo genial sobre o escárnio disposto sobre a empresária paulistana Eliana Tranchesi, que morreu na semana passada devido a uma pneumonia, aos 56 anos. Ela se tratava de um câncer de pulmão há seis anos.
No mesmo dia, a Folha de São Paulo solicitou uma versão mais curta do texto para publicar no jornal – feito na edição desta terça (28) , sob o título ‘Virulência contra Eliana Tranchesi impressiona’ - (aqui, para assinantes do jornal ou do UOL).
Eis o post no seu blog, sob o título ‘O MAIOR CRIME DE ELIANA TRANCHESI‘

Daslu
Fiquei um pouco assustado com os comentários postados na internet abaixo das notícias sobre a morte de Eliana Tranchesi. Assustado, mas não surpreso: faz tempo que se sabe que muita gente extravasa toda sua agressividade na web, e também não é de hoje que Eliana havia se transformado numa espécie de inimiga no. 1 do Brasil.
Veja bem, não estou defendendo a falecida dona da Daslu: sei muito bem que ela foi julgada e condenada por contrabando e sonegação, que há provas irrefutáveis e que dificilmente ela não saberia de nada dos esquemas, como sua defesa chegou a alegar. Mas a virulência dos comentários é impressionante. Parece até que ela pilotava o jet ski que atropelou a garotinha em Bertioga e que soltou a trava do brinquedo que matou outra menina no Hopi Hari. Meu espanto ainda é maior porque vivemos num país onde muita gente compra computador ou celular “nas boas casas do ramo”, sem nota fiscal e sem a menor culpa. Onde DVDs piratas são vendidos tranquilamente no meio da rua. Onde as malas dos viajantes chegam do exterior abarrotadas de roupas e eletrônicos, e tomara que a luz vermelha não se acenda.
Foi neste país que Eliana Tranchesi virou uma espécie de Geni, em quem era permitido jogar pedra e bosta. Mas porque justo ela, quando seus crimes – graves, não nego – não são exatamente raros? Ora, ora, ora. Porque, mais do que um símbolo de vigarice, ela era a garota-propaganda da nossa desigualdade social. A vilã esnobe e insensível, Teresa Cristina multiplicada por mil.
A Daslu passou desapercebida durante quase 40 anos, ocupando casinhas no bairro paulistano da Vila Nova Conceição. Era um endereço quase secreto, só conhecido pelos clientes, e que não fazia propaganda nem tinha site. Mas o negócio cresceu tanto que incomodou os vizinhos da rua, quase toda residencial, e a loja resolveu se mudar – justamente, ó ironia do destino, para ficar do lado certo da lei.
A inauguração do palazzo em estilo neo-cafona, às margens do rio Pinheiros, causou estardalhaço na mídia. De repente estava lá, às vistas de todo mundo, um templo dedicado ao consumo de luxo e à ostentação, num país onde milhões de pessoas passam fome. As TVs fizeram um carnaval com o helicóptero que a loja achou chique pendurar de seu teto. O fã-clube de Angelina Jolie (!) promoveu um protesto barulhento na porta, porque a Daslu vendia casacos de pele natural. Para complicar, o próprio estabelecimento criou obstáculos para si mesmo: o acesso só podia ser feito de carro, pedestres não tinham como entrar. E quem não tivesse o cobiçado cartão preto pagaria 30 reais de estacionamento, uma cifra estratosférica para 2005. Um erro de timing fenomenal, totalmente em descacordo com as promessas do governo Lula.
Quando, logo na sequência, a PF deflagrou a Operação Narciso e prendeu Eliana e seu irmão, muita gente se sentiu vingada. Padrinhos poderosos não conseguiram estancar a hemorragia de clientes: os corredores se esvaziaram, e nunca mais tornariam a se encher. Agora o palazzo está desocupado, e será incoporado (demolido?) pelo vizinho shopping Iguatemi JK, que inaugura agora em abril. Ainda assim, a Daslu sobrevive: sua confecção própria – que sempre teve ótima qualidade e preços bastante razoáveis – ocupa novos espaços em outros shoppings de SP e Rio, e em breve chegará a Brasília. Virou uma loja como tantas outras, e 100% nacional. Mas meio tarde para a reputação de Eliana Tranchesi: no imaginário dos que se sentiram excluídos pela Daslu, ela não descansará em paz.
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