15 de março de 2010 às 16:57

Triste folia baiana

Publicado em Meio Ambiente

Enquanto Salvador fervia com a folia do seu estrondoso e multifacetado axé, o fundo do mar recebia impotente o lixo que lhe jogavam.

Tudo coletado e publicado no site da ONG Global Garbage, fundada em 2003 pelo fotógrafo e ambientalista Fabiano Prado Barreto, baiano radicado na Alemanha que faz campanha pela limpeza das praias e da costa brasileira. Registra tudo em fotos e denuncia para várias partes do mundo:

O fundo da folia

Só que ao invés de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro numa mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia.

Bernardo Mussi

04 de março de 2010

O fundo da folia

O fundo da folia

Dez dias após o carnaval, resolvi mergulhar com dois amigos na área do Farol da Barra para confirmar a notícia de que havia uma quantidade absurda de lixo espalhada pelo fundo do mar naquela área.

O fundo da folia

Mesmo com a água um pouco suja por causa das chuvas do dia anterior, logo identificamos o local. Na verdade o lixo não estava espalhado, mas concentrado em um canal provavelmente em razão do movimento das marés. Uma cena lamentável! Eram pelo menos mil e quinhentas latinhas metálicas e garrafas plásticas.

O fundo da folia

Da superfície o visual parecia com as imagens áreas que vemos dos blocos de carnaval durante a festa momesca. Só que ao invés de estarem pulando, dançando e se beijando ao som frenético e ensurdecedor dos trios elétricos, os foliões do fundo do mar estavam rolando de um lado para o outro numa mórbida coreografia, empurrados silenciosamente pelo balanço do mar, sem dança, sem alegria, sem vida e sem poesia.

O fundo da folia

Assustados, decidimos não retirar o material naquele dia na esperança de tentar sensibilizar algum veículo de comunicação para fazer uma matéria com imagens subaquáticas. A intenção era compartilhar aquela agressão carnavalesca com nossa população e os donos da folia.

O fundo da folia

Fizemos contato com pelo menos três emissoras e todas pediram que enviássemos e-mails com fotos, o que fizemos imediatamente. Aguardamos respostas por dois dias e como não tivemos qualquer retorno, optamos por retirar o lixão de lá para evitar maiores danos.

O fundo da folia

O fundo da folia

A bem da verdade estávamos super desconfortáveis com nossas consciências por termos testemunhado aquela cena e deixado para resolver o problema dias após. Mas tínhamos que tentar a matéria para que a ação não se resumisse somente à coleta do material.

O fundo da folia

O fundo da folia

Tínhamos em mente que a repercussão sensibilizaria os empresários e artistas do carnaval, os órgão públicos, a imprensa, as empresas financiadoras e nossa gente. A tentativa foi boa, mas não rolou…

O fundo da folia

Fomos então, no terceiro dia após o primeiro mergulho, retirar o material. Antes, porém, fiz questão de chamar um amigo que tem uma caixa estanque para filmarmos a ação e guardarmos o documentário visando trabalhos futuros e até mesmo a matéria que queríamos na TV.

Sem cilindro de ar e contando apenas com duas pranchas de SUP (Stand Up Paddle) e alguns sacos grandes, éramos quatro mergulhadores ousados retirando do fundo do mar tudo o que podíamos naquela tarde.

O fundo da folia

O fundo da folia

O fundo da folia

Pouco antes de o sol se pôr conseguimos finalmente colocar todo o lixo na calçada.

Muitos curiosos, inclusive turistas, olhavam intrigados a nossa atitude e a todo o instante nos questionavam sobre a origem daquele resíduo. A resposta estava na ponta da língua: Carnaval!

O fundo da folia

Vou logo informando aos amigos leitores que não sou contra o carnaval, muito pelo contrário, sou fã por diversos motivos, mas acho que a realidade da festa não guarda a menor relação com as belíssimas cenas, as informações rasgadas de elogios e a excessiva euforia amplamente divulgada pela mídia.

Sei que o comprometimento com os patrocinadores e aquela velha guerrinha de vaidades contra os carnavais de outros estados como Pernambuco e Rio de Janeiro, acabam conspirando para isso. Mas vejo aí um modelo cansado, super dimensionado, sem inovações socialmente positivas e remando na direção oposta ao desenvolvimento sustentável da nossa cidade.

Aquele lixo submarino é um pequeno sinal deste retrocesso. Pior, patrocinado solidariamente pelos grandes empresários, artistas e principalmente pelo poder público que tem o dever de melhorar nossa segurança, nossa saúde e educação.

O fundo da folia

O fundo da folia

O fundo da folia

Aproveito o embalo para incluir indignação semelhante sobre os eventos realizados na praia do Porto da Barra durante o verão.

O “Música no Porto” e o “Espicha Verão” não tem trazido nada de bom para nossa cidade, além da oportunidade de vermos ótimos artistas de perto e de graça. De resto, o lixo, o mau cheiro, a degradação ambiental, o xixi pelas ruas, a impressionante quantidade de ambulantes amontoados por todos os espaços públicos e a agressão aos patrimônios históricos, são um grande “pé na bunda” do turista de qualidade.

Espicha Verão 2010. Foto: João Ramos / Bahiatursa

Espicha Verão 2010. Foto: Luciano da Matta / Agência A Tarde

Espicha Verão 2010. Foto: João Ramos / Bahiatursa

Espicha Verão 2010. Foto: João Ramos / Bahiatursa

É o mesmo que olhar para uma bela maçã com a casca brilhante e aspecto suculento, porém, apodrecida por dentro…

Naquele final de tarde acabamos contemplando um por do sol diferente. O monte de lixo empilhado na calçada do Farol da Barra virou atração. E como Deus é grande, fomos brindados com a presença de valorosos catadores de rua para finalizar a limpeza.

O fundo da folia

Desta ação, além das ótimas imagens documentadas em vídeo, resta rezar para que os donos do carnaval, dos eventos no Porto da Barra e nossos queridos foliões se toquem que algo tem que mudar.

O fundo da folia

O fundo do mar não merece aquele bloco reluzente e, ao contrário do asfalto, o oceano costuma revidar violentamente as agressões sofridas.

Não tem alegria alguma no fundo da folia!

O fundo da folia

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Julia Mércia 15 de março de 2010 às 17:05

É exatamente isso que a Destaque quer fazer com o Carnatal em Natal.

Vamos acabar com essa zona em natal que se chama Carnatal.

Júlia Mércia

André Ferreira 15 de março de 2010 às 17:48

A leitora Julia poderia esclarecer o raciocínio dela. Ainda não entendi se o Carnatal passará a ser à beira-mar ou subaquático.

Pedro Henrique 15 de março de 2010 às 17:53

Aproveito esse post para comentar sobre todo o carnaval que fizeram em torno dos Parrachos de Pirangi. E quando o IBAMA fez uma limpeza no local, encontrou apenas um óculos de grau, um pé de chinelo e três tampinhas de lata de cerveja. Ou seja: os Parrachos de Pirangi não estavam imundos como o Ibama falou. Mas como boa notícia não é notícia, nada se publicou na taba natalense.

elianalima 15 de março de 2010 às 18:17

Mas não houve o ‘Carnaparrachos’, Pedro Henrique, foi proibido.

ed 15 de março de 2010 às 18:23

Tudo isso e questao se educação, gastam muito dinheiro em carnaval e esquece de educar o povo. Esucação neles.

Luciano 15 de março de 2010 às 19:14

Sugiro algo melhor: Os encarregados pelas festas sejam responsáveis pela limpeza total da área após o evento. Acontece assim nos países de primeiro mundo!
Querer que quem curti axé e forró tenha consciência ambiental já é querer demais.