A ira santa do despeitado

Repercute nas redes sociais e espaços de imprensa do RN e do Brasil, o grotesco episódio de um truculento com residência na paradisíaca São Miguel do Gostoso, que no feriado de 7 de setembro invadiu a casa de um vizinho para ameaçar mulheres que tomavam sol na piscina sem as partes de cima do biquíni, fazendo o popular topless, uma prática existente há milênios em praticamente todas as culturas e nações. E o “careta” ainda chamou a polícia.

O primeiro topless da história humana, pelo menos nas narrativas da Bíblia, o livro que embasa toda a literatura do Cristianismo, com influência também no Judaísmo e Islamismo, ocorreu no Jardim do Éden quando a primeira mulher, Eva, usou uma folha de parreira para cobrir a vulva (alguma ligação com uva, a fruta da parreira?) e dispensou o uso da parte de cima, deixando à mostra os seios. Convém salientar que Adão e Eva não tinham vizinhos moralistas.

Ao longo das décadas de existência do biquíni, criado em 1946 pelo francês Louis Réart, causando um impacto como as bombas atômicas testadas no Atol de Bikini, a peça de uso das mulheres passou por diversas fases e modelos.

Sua aparição nos filmes dos anos 1950 e 1960 marcaram épocas e tornaram-se icônicos na indústria da sétima arte, como os usados por divas como Brigitte Bardot, Raquel Welch, Ursula Andress, Jane Fonda, Jane Birkin e Leila Diniz.

Antes de se popularizar o termo topless, o designer austríaco (naturalizado norte-americano) Rudi Gernreich lançou em 1964 o monoquíni, que foi o uso apenas da calcinha do biquíni. Sua ousadia fez surgir, então, o uso do topless.

Pouco tempo depois a onda das mulheres bronzearem os seios chegou nas praias brasileiras, tendo a atriz e modelo Leila Diniz se tornado uma referência nacional ao banhar-se sem a parte superior na glamorosa Praia de Ipanema.

O topless foi combatido naqueles anos no Brasil, com o prefeito de São Paulo, Prestes Maia, publicando portaria proibindo a prática nas piscinas de clubes públicos. Anos depois, no verão de 1977, a moda retornou nas praias cariocas.

Símbolos sexuais naquele tempo, as modelos Xuxa e Luiza Brunet chegaram a fazer topless juntas numa praia pouco frequentada do Rio, passando por um susto no dia em que um grupo de peladeiros fizeram uma roda de voyeurs.

Na Bahia, durante o verão de 1980, a Praia dos Artistas ganhou fama com as muitas mulheres que a frequentavam para tomar banho e sol sem a parte de cima do biquíni. Havia até uma placa no local com a inscrição “Topless Drinks”.

No mesmo período, lá no Rio Grande do Sul, uma garota de 18 anos, chamada Lorena Borges, causou reboliço ao fazer topless na praia de Tramandaí. Mas foi logo proibida por um grupo de marmanjos e nunca mais se ouviu falar dela.

Quase duas décadas depois da visão sensual de Leila Diniz, Ipanema voltou a repercutir com o topless em 1980 quando uma turista gaúcha quase foi linchada e teve que ouvir uma multidão histérica gritando Geni, a da canção.

O episódio envolveu a polícia que precisou usar gás lacrimogêneo e o cassetete democrático para conter a turba. Outro caso na praia da garota de Tom e Vinícius foi com uma jovem francesa que escapou graças a um herói.

Ameaçada por dezenas de moralistas indignados, a moça só não foi agredida porque um vendedor de melancia puxou um facão enorme e bem amolado e afastou os valentões e as beatas praianas. Haver isso hoje é uma idiotice.

O topless está nas novelas da TV, nos desfiles de carnaval, nas passarelas da moda (Gisele Bündchen já desfilou mostrando os seios), nos shows musicais. Janis Joplin, Gal Costa, Madonna, Cássia Eller, muitas já exibiram os peitos.

Ano passado, a atriz Florence Pugh levantou a blusa para o mundo ao ser indicada ao Oscar. Quinta-feira passada, dois dias depois do caso em Gostoso, a atriz Marina Ruy Barbosa foi manchete numa sessão de fotos de topless. É inadmissível que dez mil anos depois de Eva seminua, ainda haja surto de moralismo como esse num litoral que é point das artes e do entretenimento e que atrai para o RN todas as boas tribos. Pena que também os neandertais.

2 thoughts on “A ira santa do despeitado

  • 11 de setembro de 2021 em 05:50
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    Alex vc é o jornalista mais bem informado do RN. Parabens

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  • 14 de setembro de 2021 em 14:28
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    E o Rio Grande do Norte pretende ser um point de turistas europeus. Ainda falta muito!!!

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