2c8badc13d5a5fcee9ca9da1013cee14POR AUGUSTO BEZERRIL 

@augustobezerril

augustobezerril@tribunadonorte.com.br 

Alguém abriu uma página instagramável,  na qual tinha subscrito: não deixe a dúvida acabar. Lembrei da festiva Marrom cantando “não deixe o samba morrer”. Mais adiante reelaborei Capitu . A personagem sobrevive enquanto persiste a dúvida. Assim,  Machado de Assis não se deixa morrer. A boa literatura, mesmo para quem não tem hábito de ler, é um mundo para gente sonhar. O jornalismo, do contrário, para gente acordar  Sabe-se no entanto que a mensagem metamorfoseia (ou não) com o tempo,  mesmo que os elementos sígnicos da trama sejam reelaborados por movimentos da sociedade. O que faz, aqui do meu canto, duvidar sempre quando se fala do falecido jornalismo. Certo que muitas notícias nos põem em dúvida, mas voltando ao início, por que a dúvida tem, mesmo, de acabar?

Além do axé , do samba e do brasileiro, uma coisa que amo no Brasil é que, em geral, duvida-se, mas não se surpreende. Talvez a geografia explique: um país tropical, de fauna e flora reconhecida internacionalmente como exótica, tem solo para geada e temperatura negativa. Neve, portanto, não nos surpreende. O filme Bacurau, rodado em Parelhas, mostra um Rio Grande do Norte que, para um estrangeiro, parece distante da Via Costeira de Natal. Mas, para um potiguar, é tudo Rio Grande do Norte.  Ao invés do Atlântico, Sonia Braga seguiu em direção do Gargalheiras, onde a água (creiam, mas duvidem) jorra. Parafraseando Alcione,: não falta  sombra de dúvida para quem quer duvidar. Uma câmera na mão, Deus faz o Diabo na terra do sol.

Durante um café da manhã, em São Paulo, uma amiga jornalista, carioca mas residente na amazônica Manaus, perguntou se minha irmã tinha estudado na Escola Doméstica.  Silêncio na seca e fria manhã paulistana!! A resposta foi sim. Ela teria identificado o traquejo do movimento dos talheres, pois a irmã teria deixado Manaus para ser mais uma  das pupilas de Noilde Ramalho. Todos da mesa fiaram espantados em saber que, aqui em Natal, teria uma escola aos moldes da Suíça. Mas será que a ED era, assim tão, internacional, mesmo? Fica-se a dúvida do que, para nós, é indubitável. O legado de Noilde Ramalho e Henrique Castriciano resiste como um plus de civilidade oxigenando a educação na cidade do sol. A regra é simples: na dúvida, limite-se. Limitar significa, no dicionário da boa convivência,  acione o botão respeito.

A dúvida, no mundo líquido, escapa na fluidez dos limites. Autoridades inovam nas maneiras e novas maneiras buscam por novo olhar. Voltando à geografia, vivemos tipo um movimento multidirecional de placas tectônicas comportamentais. Na literatura inglesa é comum alguém educado e bem intencionado  intervir numa situação, digamos embaraçosa, exclamando sobre o tempo. “Hoje temos sol”, algum personagem  de Jane Austen ponderaria. Em Natal, o sol aparece quase todo santo (para quem crê) dia. A luminosidade não causa estranheza e dúvida sobre chuva nos sombreia. É assim!  C´est la vie, diria um francês com ares de autoridade blasé. Fato que os  conflitos fazem parte de uma certeza planetária.Não há dúvida, mas vamos duvidar. Posto que convicção trata-se uma verdade individual (quase sempre) intransferível,  a vida é feita de dúvida. E onde, mesmo, tem canto para a gente sambar?

 

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  1. Fabiana
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    Texto lindo e apropriado a tanta loucura e falta de educação.

    Na dúvida, limite-se (melhor conselho).
    Viva a Escola Doméstica!

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