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POR AUGUSTO BEZERRIL

@augustobezeerril

augustobezeerril@tribunadonorte.com.br 

Meu planeta carnaval, adeus! Hoje tem desfile das campeãs do Rio de Janeiro. Ganharam as “ganhadeiras de Itapoã” da Viradouro. Pois, creiam, ao voltar de Salvador e Costa de Sauipe, comprei o jornal A Tarde e lá estava impressa reportagem sobre a homenagem da escola de samba carioca às poderosas mulheres baianas. Eu, muito acredito no meu axé, retornei tendo mais o que contar sobre o que se  fala na Bahia. O ano regido por xangô, os filhos do orixá. E a crença que, segundo um baiano, toda criança cresce ouvindo de pais, avós e familiares. O orixá, ouvi, representa uma missão. Ok, minha missão de sair no Filhos de Gandhy não foi e não deve ser cumprida. Todavia, ir ao ensaio do Cortejo Afro, na mesma segunda, em que Salvador se mexia ao som do Xandy Harmonia fez entender mais do poder plural da ancestralidade. O axé é uma soma de galáxias que não cessa.  Embora eu tenha propensão aos blocos afros, a diversidade de estilo é real na Bahia. É tudo energia ligada. Tipo: não bati com o stylist Fagner Bispo em Salvador, mas ao criar looks para Xandy e Carla Perez, Fagner  fez com que as edições de ABZ Tribuna do Norte dedicadas ao carnaval tivessem sentido de estilo na vida real. Incrível que, na minha passagem por Salvador, encontrei Gabi Cruz  (ela quem me apresentou o trabalho de Bispo, que virou brother na SPFW) e Jamil Moreira numa tarde em que o céu caiu em salvador e almoçamos no Hotel Fera.  “Não é todo mundo faz eu sair de casa em dia de chuva, não”, brincou Jamil. Carioca baiano, Jamil foi um dos primeiros a me fazer entender a Bahia. Quando Jamil diz “querido”, deixe girar.

O “deixa  afluir o fluxo” é uma ordem dos nascidos com sol em Gêmeos (eu tenho Vênus no signo).  Então, quando a geminiana Gabriela me falou sobre a exposição das ‘gordinhas” de Eliana Kertész,  em cartaz no Palacete das Artes, não pensei duas vezes. Lá fui eu. Esqueça Botero, as gordinhas baianas são graciosas. O único gordo na história da artista é o São Francisco. Todas as imagens são meninas. Verdadeiras ganhadeiras da Bahia. Cada escultura é parece compor um feed de imagens feitas a partir do barro. Todas elas me transportaram à calçada da casa de Ceição, em Pedro Velho, Rio Grande do Norte. A rua da linha é passagem para procissão de São Francisco, padroeiro da cidade. E a calçada de Ceição constrói um feed de imagens inesquecíveis. Assim como todo menino e menina baiana, quem sentasse na calçada de Ceição ouvia histórias que “Deus dá”. Conversar, hábito deixado de lado pelo dedilhar no cell phone, tem a força ancestral da pausa para o riso, reflexão e, vamos combinar, até falta de paciência. A calçada da casa de vovô Zezé (sim, Bezerril)  tinha Seu Iedo Gadelha (grande amigo) e Seu Genar Bezerril (primo de vovô). Eu adorava ouvir as indagações astrofísicas de seu Iedo. Creio que, muitos como eu, também. Meu conversê era com Lorena, filha de Seu Iedo e amiga de colégio. Lorena brigava com Graziela, Benedita. E eu…. não entrava na briga, mas estava no meio do furação. Como diz o amigo Caico: confusão!

As calçadas fervilhavam em fevereiro. Eu e meus primos fazíamos festa na calçada de Dona Maria da Glória Marques. Diversão! A chegada de Silva e Tia Carmelita era sinal de carnaval com animação, fosse no clube de Seu Agenor ou na Toca do Barbudo. A “nêga do cabelo duro” pura coreô no clube Aquários – onde a música baiana se misturava ao new wave do B52. Quem não dançou Private Idaho? O disputa acirrada entre Beduínos, Turma do Funil e “Reage, Lulu” (só pra as bem menininhas!) deixa lembrança sobre o risco do famoso jogo em que “todos perdem“, bem próprio de sei lá onde inventaram essa brincadeira. Sei que vivi o suficiente para ver Caqui sendo carregado, deitado numa rede,  entre galhos de garrancheiras numa terça-feira de carnaval.  A brincadeira era retratar como antigamente se levava os mortos. Coube a Caqui, o personagem do enredo da Turma do Funil. Dizem que o leite da planta cega. Caqui, porém, viveu com os olhos prontos para ver até demais. Controvertido (controverso?)  por natureza, Caqui é uma figura sem igual. Não haverá na história de qualquer planeta alguém tal Caqui. Quem acredita ou é ateu, viu Caqui uma vez sabe: não tem igual nem na Bahia.

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Março chega, neste domingo, fechando verão. Desejo que a vitória das ganhadeiras de Itapoã traga o frescor do cheiro de alecrim das roupas cuidadas pelas lavadeiras do Rio Piquirí. Maria falava pouco, amava filme de bang bang e tinha orgulho da “lavagem” e dos cantos do coco de roda. Maria amava saia rodada, vermelha. Maria era muito fashion. Sabia sobre roupa e elegância como poucas. Não esqueço de Maria banhando as pernas com águas de Iemanjá, na Praia do Meio, em Natal, depois de divertida sessão de cinema nas Rocas. Sim, we rock.

 

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