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POR AUGUSTO BEZERRIL

@augustobezerril

augustobezerril@tribunadonorte.com.br 

O despertar causado por movimentos tais Vidas Negras Importam e Pretas Na Moda ativa discussões sobre moda, raça e feminilidade. ABZ Tribuna do Norte resgata a aparição das modelos Donyale Luna e Naomi Sinns em meio à efervescente  Era dos Direitos Civis nos Estados Unidos. O surgimento das primeiras supermodelos negras,  muitas décadas antes das divas Imã, Naomi Campbell, Alek Week e, mais agora, Adut Akesh – suscita questões para além da cor da pele,  quando analisado a partir do prisma de  uma cultura eurocêntrica, machista e burguesa. É preciso lembrar que, na década anterior,  nos 1950, – com o crescimento do mercado consumidor negro, as agências de publicidade americanas resolveram criar duas versões para o mesmo anúncio. As modelos brancas fotogravam para anúncio veiculados na revista Life. As modelos negras apareciam em peças veiculadas na revista Ebony, voltada para o público afrodescendente. Os produtos eram destinados para então classe média emergente. O que inclui brancos e negros. A  criação do Comitê dos Direitos Civis de Nova York, tratou de banir a segregação.Os grandes anunciantes passaram a destinar, a partir do começo dos 1960, um número de anúncios por ano no qual tivessem modelos brancas e negras. O grande impacto da moda se deu, porém, em 1965 quando o fotógrafo Richard Avedon – um dos magos da fotografia de moda – abriu as páginas da Harper´s Bazaar para Donyale Luna.

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GLAMOUR DAS DIVAS 

Donyale voltou a revirar a indústria da moda, em 1966, ao ser a primeira negra a ilustrar capa da Vogue inglesa, em março de 1966. Nascia a imagem da mulher negra associada ao glamour. Frente às lentes de Avedon e outros fotógrafos, a modelo manteve o poder da exuberante feminilidade afro em imagens sofisticadas e impactantes. Tínhamos uma negra no seleto topo da  Alta Costura, vestindo e fazendo vender roupas de mestres como Paco Rabbane. Ao passo que encorajava e abria as portas do mercado da moda  para jovens negras americanas, Donyale também adentrou no universo das artes sendo musa para pintores e cineastas do nível de Fellini. Mesmo com o sucesso, a modelo não transpôs a imagem de exótica . Ou estranha, embora não faltar-lhe  glamour. Eis que, em outubro de 1969, a revista  Life estampa na capa o rosto de Naomi Sinns consagrando-a como “top fashion model”.  Ao contrário de Donyale, Naomi incorporou o modo de vestir e agir das modelos brancas. Elegante e sofisticada, Naomi figurou por anos entre as mulheres mais bem vestidas dos Estados Unidos. Um grande feito numa época em que revistas como Jet – voltada para o público negro – aconselhavam as leitoras serem contidas no uso de estampas, peles, acessórios, cores e brilhos. O que Donyale e Naomi falam ? Além de apontar o inegável glamour, as modelos mostram o antagonismo sobre a conservação ou ruptura do  ideal de feminilidade dominante.

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IMAGENS QUE IMPORTAM 

Em Donyale, a  afirmação da modelo negra está relacionada à mudança do ideal de feminilidade, no qual a mulher é retratada como figura frágil, passiva e dependente. A Era do Direitos Civis na América, junto ao trabalho de fotógrafos e editores progressistas, ao promover a inclusão das modelos negras expõe a imagem da beleza negra forte. Temos uma heroína negra em solo onde até então o poder é masculino. Alçada ao nível de estrela internacional e referência de estilo, Naomi lança mão dos símbolos estéticos burgueses e o estilo de vida americano como forma de se converter um ícone de elegância entre brancas. É preciso situar no tempo e relembrar a comoção causada pela morte de  Marthin Luther King Jr – quando a opressão sobre comunidade negra ganha os holofotes do mundo inteiro. Meio século depois da afirmação da comunidade negra nos Estados Unidos, o grito de agonia de Floyd reverbera em todo planeta. No Brasil, o menino João Pedro, o potiguar Giovanni Gabriel multiplicam a hastag #vidasnegrasimportam. A moda brasileira é chacoalhada por notícias sobre racismo e agressões. Pretas Na Moda traz a urgência da ética sobre a estética e o papel da moda como vetor de signos e símbolos. A capa da revista, a escolha da  modelo do anúncio ou editorial e a ideia sobre cultura e pertencimento agregados ao conteúdo é educação para um olhar em direção de garantias amplas dos Direitos Civis de minorias – que hoje ganham voz – negros, trans, gordos, idosos. A historia mostra que o glamour existe no simples. E hoje, mais que nunca,  exercitar sobre o tema muito importa.

IMAGENS 

Foto 01, sequência de imagens de Donyale Luna. Foto 02, Naomi Sinns em editorial de moda e, na foto imagem 03, a histórica capa da Life em 1969.

 

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