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POR AUGUSTO BEZERRIL

@augustobezerril

augustobezerril@tribunadonortte.com.br

Eu sou de papel. Fiz jornalismo pensando em todas formas de jornalismo impresso. Meu projeto de final de curso foi sobre Cultura Vogue de Estilo. Minha nota foi 10. A nota máxima é minha, do professor Eduardo Pinto e do designer gráfico Roberto Cavalcanti. Ao trabalhar em revista fui criando laços com os designers gráficos. Maurifran Galvão e Henriete Cortez são até hoje amigos de coração. Desde eu pisar na Tribuna do Norte, Nathalie e Marrocos sacam o que eu penso editorialmente sem eu nem falar. Alysson Santos, hoje trabalhando em jornal impresso em Portugal, é top profissional e amigo. Eu e Fabinho fizemos páginas alto impacto. Uma cheguei na sala de criação de uma agência de publicidade e tinha emoldurado uma página da Tribuna do Norte como exemplo de diagramação. Era uma reportagem sobre Reinaldo Lourenço na SPFW. Eu fiquei, na minha timidez, sem graça. Pois sabia que muito além da apuração estava o trabalho do primeiro leitor: o digramador. Deus me deu a sorte de trabalhar com muitos grandes profissionais. Posso dizer que seres humanos ímpares. Hoje, Sílvio Andrade – com quem partilhei a função de repórter especial na Tribuna do Norte no final dos anos 90 – me trouxe a notícia da partida de Laércio Medeiros. Eu repeti o que sempre achei: as páginas deveriam ter o crédito do diagramador. Pois, assim, todos iriam saber da sensibilidade, elegância e senso estético, humanitário e jornalístico de Laércio Medeiro. Ou, como os colegas chamavam na redação, Lalau.

Ontem eu fiquei triste não sei nem porquê. Dormi cedo após ler um post de uma assessora de imprensa americana com uma página sobre Geová, muito possivelmente assinada por Laércio. Geová e outros profissionais sempre repetem sobre a qualidade gráfica do meu trabalho em impresso. Da minha parte acho que vem do ideia de todo poder ao diagramador. O respeito gera um ciclo virtuoso. A confiança que se estabeleceu era tal que eu enviava textos e imagens, Laércio levava um tempo para ressaltar o significado da mensagem. Quem trabalha comigo sabe, que cada elemento tem um significado. Do respeito recíproco,  Eu e Laércio passamos a partilhar vivências. Foi quando descobri que, em meio ao fervido do fechamento de páginas, Laércio escrevia uma história de luta contra o câncer. Entre revezes e esperança, a mãe descansou. Os revezes do jornalismo impresso acabou por nos afastar da convivência. Mas uma vez pedindo uma corrida, o motorista do app era Laércio. Dois dias depois, chamei e o motorista era Laércio. Assim amigos e familiares tiveram a sorte de contar com atenção do rapaz. Em fevereiro ao voltar de Salvador e Sauípe, Laércio me falou da alegria de integrar o marketing da Michelle Tur. Ele falava com entusiasmo sobre o trabalho e a energia boa Ele estava feliz, criativo e sempre atencioso. Uma noite ele se propôs sair da Cidade Alta para atender um pedido de mamãe que mora na Zona Sul. Não era uma corrida de app. “Não precisa pagar. Eu vou de bike, mesmo. Passo por lá“, respondeu. Deus bota no mundo gente de luxo! Dias sem nos falar, recebo uma mensagem de áudio. Laércio diz não ter respondido por ter descoberto câncer no cérebro e metástase. Não conseguia ler ou escrever. Mas responderia áudio sempre que possível. No face, ele postou pela última vez manifestando desejo de, quando tudo passar, viajar para Antunes, litoral de Alagoas. Hoje acordei tarde. Li notícias pouco felizes de um Brasil nada digno da nobreza de Laércio. Mas não esperava e não contava de saber de um Brasil sem Lalau. Pensei em páginas em branco. Pensei no propósito do que se comunica. Pensei na engrenagem do fazer comunicação.

DESENHO DA PÁGINA 

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Ao ser convidado para integrar o time da Tribuna do Norte, Ricardo Alves me questionou porque eu não dedicava ao digital tão somente. Relembrei minha ousada com Kerginaldo na própria TN e, depois na Tribuna do Norte. Mas amo tudo o papel como suporte. O trabalho do diagramador. O impacto da primeira visualização. Como eles transformam horas e dias de apuração em significado gráfico. Um trabalho silencioso, muitas vezes sem crédito. Muitos diagramadores não recebem o tratamento merecido. Eu sou fã de profissionais tais Marrocos, Maurifran, Nathalie, Alisson, Fabinho. Sou grato a todos. Sinto-me  devastado com a prematura partida de Laércio. É uma notícia que não gostaria de ouvir, nem escrever. Nenhum diagramador, especialmente quem conheceu, gostaria de diagramar. O digital deixa uma tristeza Matrix. A jornal impresso deixa a marca. Como no coração, Laércio é o desenho de  luz. Deus me fez afortunado de partilhar e criarmos páginas lindas juntos. O nosso melhor para o melhor leitor.

Foto Acervo

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