Para Sérgio Habib, governo espantou as montadoras de automóveis do Brasil

9 09Etc/GMT+3 julho 09Etc/GMT+3 2014 por fernandosiqueira

O empresário Sérgio Habib – presidente da JAC Motors no Brasil – fez um raio-X do mercado automotivo brasileiro em entrevista para a revista Veja. Para o executivo, as medidas protecionistas deram errado e o governo espantou as montadoras.

Para Habib, as medidas do governo impediram a vinda de novos fabricantes para o país. Antes do IPI majorado de 30% e do Inovar-Auto, JAC, Chery, Land Rover, BMW, Mercedes e Audi já tinham planos para construir fábricas no Brasil.

No entanto, após o aumento do IPI e as novas exigências do Inovar-Auto, alguns fabricantes que sondavam o mercado desistiram. Habib explica que todas as marcas com planos de fábrica já atuavam como importadoras, mas aquelas que quiseram entrar dessa forma no país, foram impedidas pelas novas regras.

A questão é que ninguém vai se arriscar em um mercado, entrando já com plano de fábrica e sem saber se seus produtos serão aceitos pelo consumidor brasileiro. Por isso, Wuling e Tata Motors, segundo Habib, não vão chegar tão cedo. A JAC Motors, por exemplo, tinha planos de importar durante três anos para então pensar em uma fábrica, mas teve de mudar sua estratégia quando as regras mudaram.

Fabricantes que se estabeleceram no fim dos anos 90, por exemplo, demoraram em média quase uma década para tomar a decisão, portanto, desde o início daquela década, eles atuavam apenas como importadores. Para o presidente da JAC, o Brasil exige do empresário um cheque de R$ 500 milhões para construção de uma fábrica sem que ele conheça o mercado nacional.

A importação é necessária para se medir a reação dos consumidores, mas ainda assim onerosa para o fabricante, pois com o IPI majorado de 30%, o Brasil na prática impõe um imposto de importação de 85%, o que é fora da realidade do mercado mundial. A cota de 4.800 carros por ano é insignificante diante do tamanho do mercado.

Outro ponto abordado por Habib é em relação ao conteúdo nacional. Para o empresário, é dificílimo controlar a origem das peças, tanto que o Inovar-Peças ainda nem saiu do papel. Para ele, as regras são retrógradas. Não é papel do governo saber de onde vem as peças. Cada fabricante deve comprar de onde lhe for mais conveniente.

A JAC Motors, por exemplo, deverá cumprir as exigências de conteúdo local não por imposição do governo, mas por causa dos custos, já que o volume de produção será maior. Já no caso da BMW, por exemplo, ele diz que se fosse o fabricante alemão, traria o motor da Alemanha. Ele resume a questão: Nenhum país é bom em tudo. Com o país fechado, as empresas acabam tomando decisões baseadas em decretos ao invés de bom-senso.

Em relação aos preços dos carros, Sérgio Habib diz que os valores não aumentaram muito nos últimos cinco anos. No período, o mercado passou de 2,5 milhões para 3,5 milhões de unidades, graças ao ganho com produtividade, o que compensou reajustes salariais e a inflação no período.

No entanto, os preços começaram a subir este ano. Segundo o empresário, com a queda das vendas e da produção, as despesas das montadoras aumentaram e por isso verifica-se reajustes nos preços. A tendência de aumento dos preços poderia ser evitada com maior concorrência no setor. Habib vê o custo Brasil como um fator que contribui na piora do cenário.

Ele explica que um fabricante de automóveis, num país fechado como o Brasil, passa mais tempo em Brasília tentando garantir seus direitos do que na fábrica, procurando uma forma de reduzir custos. Um exemplo dado pelo executivo é o custo de transporte de um container entre Hefei e Xangai, que custa R$ 500 para percorrer os 500 km que separam as duas cidades chinesas. No Brasil, ir de São Paulo ao Rio custa em média R$ 1.900. Para compensar o custo em logística no país, o dólar teria de ser contado a R$ 8.

Alta dos juros e a falta de confiança no emprego, por exemplo, tem maior impacto sobre o mercado do que um aumento nos preços. Habib fala que altas de 3% ou 4% não afetam tanto as vendas quanto uma taxa Selic ir de 7,5% para 11,5%. Ou seja, o efeito negativo nas vendas é muito maior, visto que 65% das vendas são financiadas. Assim, com maior dívida a longo prazo, a confiança do consumidor diminui, pois não tem certeza se manterá o emprego.

Nessa situação, o consumidor não quer se arriscar tanto e por isso busca um carro usado. Habib fala em alta de 12% nas vendas de carros de segunda mão em 2014, enquanto os 0 km caíram 3% no período. No entanto, ele não considera que a restrição ao crédito tenha efeito sobre a queda nas vendas, pois as instituições financeiras já vinham fazendo isso há mais de um ano atrás. O motivo é o aumento da inadimplência, um problema que existe há muito tempo.

Por fim, Sérgio Habib diz que a Copa do Mundo foi outro fator que reduziu as vendas de automóveis. No Rio de Janeiro, por exemplo, ele relata que houve apenas 15 dias úteis em junho, o que reflete diretamente nas vendas. Por isso, o mercado caiu 17% em relação a 2013.

FONTE: revista Veja

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