Coluna Crônicas da Cidade (37)

12 12Etc/GMT+3 julho 12Etc/GMT+3 2018 por fernandosiqueira

 

bodega 3

Limite de Competência

De autoria do professor Luís Almeida Marins, dono de prestigiosa empresa de consultoria em São Paulo, o artigo intitulado “Eu sou um incompetente”, trata de um assunto bem comum ao nosso dia-a-dia. Relata, com extrema fidelidade, as angústias que assolam aquele indivíduo que foi guindado a um posto acima de sua real capacidade, de seu tirocínio, enfim, de sua competência. Nas palavras do professor, esse indivíduo, ao se ver ocupando um cargo para o qual não tem o necessário preparo, logo passa a tratar mal os subordinados; a cobrar-lhes mais eficiência, sem, no entanto, saber como torna-los eficientes; mete-se a fazer
reuniões infrutíferas e age de todas as formas para encobrir sua própria incapacidade. O estresse, a taquicardia, a insônia logo passam a atormenta-lo e, não raro, pode ser vítima de um colapso nervoso. Na maioria das vezes perde o emprego e compromete sua carreira.

O protótipo retratado no artigo do professor Marins, sugere-nos a figura de um executivo. Todavia, na vida real podemos ver
casos de pequenos, médios e grandes empresários que enfrentaram insucessos exatamente porque ousaram ultrapassar aquele limite, como aquele camarada que tinha uma pequena loja, conseguida com o esforço de anos e anos de trabalho duro naquele mesmo estabelecimento comercial, cujo antigo proprietário, seu patrão, num gesto de reconhecimento – mais do que justo, aliás – havia passado o negócio para ele ao aposentar-se.

Dono do pedaço, o cabra arregaçou as mangas, duplicou as vendas, pagou rigorosamente em dia os compromissos com o ex-patrão, consolidou uma confortável situação financeira e passou a administrar os benefícios de um caixa superavitário, chegando a ser paparicado pelos gerentes dos bancos locais, que faziam romaria ao seu estabelecimento, cuja modéstia nem de longe deixava transparecer o real poderio financeiro do homem. Elemento equilibrado, comedido, fez excelentes aplicações com o
dinheiro que ganhou em seu pequeno negócio e, com o passar dos anos, tornou-se proprietário de invejável patrimônio. Pode-se até mesmo dizer que aquele homem bom, honesto e trabalhador, pai de família exemplar, havia alcançado o verdadeiro nirvana com o coroamento de uma carreira bem sucedida para quem teve uma infância pobre, uma adolescência difícil, sem poder completar os estudos e um começo de vida profissional especialmente duro. Não é fora de propósito, afirmar-se que ele tinha atingido aquele ponto em que o indivíduo pode ser considerado a síntese da famosa frase de Ataulfo Alves: “Eu era feliz e não
sabia”. Mas, aí veio a picada da “mosca branca”. A cidade havia crescido, oferecendo novas oportunidades de negócio. Os do seu ramo, haviam modernizado instalações, tinham filiais em bairros chiques e demonstravam progresso. Por que não fazer o mesmo? Pois ele fez! Alugou prédio na avenida mais movimentada, instalou loja com toque arquitetônico atual, contratou
empregados, multiplicou estoques e foi à luta. Logo, teve que enfrentar ferrenha concorrência e custos elevados. Além disso, acostumado a trabalhar num ambiente que conhecia muito bem, passou a conviver num universo totalmente diferente. Habituado a ter todo o seu negócio “a mão”, foi obrigado a dividir responsabilidades, entregando sua antiga loja, verdadeira “galinha dos ovos de ouro” , à administração de terceiros. Distanciou-se de sua antiga freguesia, para conviver com uma clientela totalmente desconhecida e diferente… A forte concorrência levou-o da dar descontos, os compromissos foram “comendo” suas
reservas primeiro e parte do patrimônio, depois. Perdeu o tirocínio. Aquele novo universo sufocou-o. Vieram os atrasos e os protestos. Os gerentes de banco sumiram. Fechou a nova loja e retornou às antigas instalações, onde recomeçou a vida com dignidade e com a sabedoria da lição recebida.

Talvez o mais feliz mesmo seja o bodegueiro da esquina, porque entra ano, sai ano, a moeda muda de nome, a inflação vai às alturas e cai para um dígito e ele continua navegando em mares tranquilos, certamente porque não lhe passa pela cabeça a idéia de testar seu próprio limite de competência…

Os comentários estão desativados.