O blog Bê-a-Bá Digital conversou por e-mail com a jornalista que está na vanguarda do uso das mídias digitais no jornalismo: Ana Brambilla. Nessa entrevista, concedida para ser incluída em meu artigo de conclusão de curso de “Gestão de Marcas na UFRN” (quando o artigo for analizado pela academia disponibilizou aqui), a doutora em comunicação fala da importância das ovas mídias para a divulgação de conteúdo e das novas ferramentas que as redes estão disponibilizando para atrair jornalistas e empresas de jornalismo para atuarem em suas time lines. Mas alerta para o perigo da internalização dos conteúdos.

Ana Branbilla coordenou o projeto que resultou na publicação de três livros: Na bagagem, três livros: Para entender as mídias sociais, Para entender as mídias sociais 2 e Para entender as mídias sociais 3 (click no nome e faça download gratuito).

Essa entrevista inicia uma série de conversas sobre mídias sociais e jornalismo, que nas próximas semanas trará editores de novas mídas da Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo. Aproveitem as análises e distribuam conhecimento!

Cledivânia Pereiras – No cenário atual, qual a importância das mídias sociais para o jornalismo e qual a importância do jornalismo para as mídias sócias?

Ana Brambilla – Entendo que o jornalismo e as mídias sociais estão se mesclando de uma maneira orgânica, alheia aos objetivos de qualquer empresa editorial ou de tecnologia. De nada serve o site de notícias postar links a cada 30 minutos no Facebook, esperando o clique para aumentar sua audiência se o usuário espera o conteúdo integralmente postado nas redes ou se contenta com as manchetes. Note que estou considerando que ainda exista interesse do público pelo tipo de notícia publicada pelos veículos, o que me parece um cenário em movimento. A importância das mídias sociais para o jornalismo é muito superior ao real uso que faz a maioria dos veículos. Enquanto uma presença coerente na rede compreenderia a ativação (postagens), a produção de conteúdo e o relacionamento, as redações se encontram apenas na primeira atividade (ativação/postagens) que é aquela que gera um retorno a curto prazo e impacta no modelo de negócio vigente. Isso não significa que seja o uso mais adequado das mídias sociais pelo jornalismo, ao contrário. É um uso que produz dependência na geração de audiência e efetivamente não explora as características mais fundamentais desses espaços, que são a presença dos indivíduos como produtores de conteúdo e a possibilidade do diálogo. Se invertermos e pensarmos na importância que o jornalismo (profissional, considero) tem para as mídias sociais, bom, aí vejo outro cenário. Basta lembrar do que aconteceu com o Orkut quando foi adotado massivamente: ele “orkutizou”, ou seja, passou a ser habitado por trivialidades, banalidades e conteúdos dispensáveis pelo público ali presente. Então, é notório que empresas como Facebook e Twitter se privilegiam da postagem de conteúdo editorial de qualidade na busca por manter o interesse do público por aquele espaço. É uma maneira de agregar valor à rede. No médio prazo, talvez isso já não faça tanta diferença a um usuário cada vez mais interessado em microrrealidades contadas por seus pares nessas redes, ao invés de notícias produzidas sob critérios de noticiabilidade de mais de 200 anos. Mas pelo menos por enquanto, é nítido que as redes se beneficiam mais do jornalismo profissional do que vice-versa.

Facebook e Twitter têm demonstrado muito interesse no conteúdo jornalístico criando, inclusive, canais e ferramentas específicas para essa produção. Como você analisa esse interesse e você acha que o jornalismo já ocupa como deveria seu espaço nas mídias sócias?

Facebook e Twitter têm claro interesse no conteúdo dos veículos editoriais, mas aparentemente isso ainda ocorre de maneira muito distinta entre as duas redes citadas. O Twitter ainda respeita um elemento essencial que o da propriedade do veículo pelo espaço de publicação, ao contrário do Facebook, que através do Instant Articles busca internalizar a veiculação de conteúdo editorial. Essa internalização é uma bomba relógio que explodirá na direção não apenas das empresas jornalísticas quanto na direção do público também. Explico: atualmente, o Instant Articles permite que o veículo venda publicidade nas páginas onde publica seus conteúdos. A receita dessa publicidade é 100% revertida para o veículo, ou seja, o Facebook não fica com uma parte. Mas isso é assim hoje! Como já demonstrou com outras funcionalidades e pelo próprio sistema de distribuição de posts, o Facebook muda suas regras a todo momento, sem aviso prévio e de maneira “legal”, pois se reserva esse direito. Ou seja, é estratégico atrair grandes players editoriais para publicar seus conteúdos na íntegra, criar dependência mercadológica e então limitar essa distribuição, como já fez com os posts comuns, levando as fanpages a se sentirem no dever de pagar para recuperar a visibilidade perdida com a mudança repentina do algoritmo. Para o usuário, o prejuízo é social, afinal de contas, teremos o que se entende por “função social do jornalismo” limitada à distribuição de uma única empresa de tecnologia. Isso é um completo absurdo, um retrocesso de mais de dois séculos na busca pela diversidade de olhares, pela pluralidade da realidade que a imprensa ainda traz. Ainda que os sites próprios de cada veículo sigam existindo, eles ficarão às moscas e logo não terão mais razão de ser. Há um risco social ainda não estimado que as empresas jornalísticas estão correndo e onde elas próprias estão colocando os seus públicos ao aceitarem participar de sistemas como o Instant Articles.

Em sua opinião, a marca de um veículo de comunicação é importante para dar credibilidade a uma informação que circula nas mídias sócias? As empresas trabalham bem essa possível associação (marca/credibilidade)?

As marcas ainda são um diferencial na credibilidade de uma informação que circula por um mar de ruídos como a Internet. Se por um lado é verdade que elas já não dão conta mais da necessidade e dos principais interesses da população por informação, por outro elas ainda marcam a diferença quando há especulações cujo foco não pertence às microrrealidades dos usuários. Se as marcas editoriais estão trabalhando bem essa associação? Bom… particularmente vejo que estão fazendo o que sempre fizeram – e que devem fazer – que é publicar informação checada. Isso não significa que seja informação relevante. Mas é verdade que não temos grandes barrigas no jornalismo atual. Mas o usuário está amadurecendo e, à medida em que entende que a credibilidade também é fruto de relevância, aí as marcas dos veículos terão um grande problema nas mãos.

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Que é – Além de jornalista, Ana Brambilla é professora na Faculdade Cásper Líbero e na Faculdade das Américas (SP), doutora em Comunicação pela Universidad Austral, de Buenos Aires, mestre em Comunicação e Informação pela UFRGS (2006) e bacharel em Jornalismo pela PUCRS (2003). Seus estudos e atuações na docência e no mercado estão fortemente vinculados ao digital e a processos de colaboração aplicados ao jornalismo e ao marketing, à tecnologia, inovação de formatos, modelos de negócio e cultura open source. Foi editora de mídias sociais na Editora Globo, cargo que também ocupou no portal Terra e na Editora Abril. Na academia, lecionou em cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação em vários estados brasileiros, como São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia. É professora convidada no Master em Jornalismo Digital e em Gestão do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), em São Paulo.