As redes sociais estão se transformando (já são) no palco dos debates sociais. E os temas políticos, no Brasil, estão no centro do universo digital e recebem o direto reflexo desses embates. Com cada vez mais frequência, os debates online estão ocupando espaço em discussões off-line e contribuindo para a tomada de decisão.

Quando houve a troca de governo (Dilma – Temer), o blog fez uma breve análise sobre o posicionamento digital dos principais personagens do embate político (a presidente afastada, Dilma Rousseff, e o presidente em exercício, Michel Temer). Nesse breve relato, já analisávamos que o presidente que assumia não tinha familiaridade com o mundo digital. A rede mais usada por ele era o Twitter. E foi justamente nessa conta que na noite da última terça-feira (21) a assessoria do presidente despertou uma crise de comunicação digital.

Contexto:

Michel Temer está dando uma série de entrevistas. Sem entrar em questões políticas, o claro objetivo da comunicação do presidente é ressaltar os acertos da equipe econômica e mostrar legitimidade no cargo. A primeira entrevista foi dada ontem (21), ao jornalista Roberto D’Avila, na Globo News. A conversa foi bastante divulgada pela emissora ao longo dos três dias que antecederam e, também, no perfil pessoal de Michel Temer. Três horas antes da transmissão (gravada) da entrevista, a assessoria do presidente postou vídeo anunciando a conversa.

No perfil pessoal de Temer, no Twitter, a entrevista foi transmitida simultaneamente. A Assessoria postou ao longo de uma hora e meia, mais de 130 frases ditas pelo presidente. Ressaltou os acertos da equipe econômica, ensaiou umas hashtags (#NovoGoverno #DemocraciaDaEficiência), transmitiu frases de efeito (“Hoje as pessoas não querem saber se você é de esquerda ou de direita, querem resultados positivos.”), apontou metas (“A primeira dívida social é gerar emprego, hoje nós temos quase 12 milhões de desempregados.”), analisou questões politicas (“Não que eu me sinta, a Constituição é que diz que que tenho legitimidade.”).

Essa última postagem, inclusive, foi a segunda (entre as mais de 130 feitas ao longo da entrevista) que mais repercutiu. Teve (até a manhã desta quarta (22), 136 retweets e 288 likes). Mas, entre as postagens, uma se destacou, não apenas na timeline do presidente, mas ocupa espaço nas redes sociais e nas páginas de sites do Brasil: quando falava sobre as restrições dada a Dilma para o uso de avião, a assessoria de Temer transcreveu a frase “E ademais disso, pelo que sei, a senhora presidente utiliza o avião, ou utilizaria, para fazer campanha denunciando o golpe.”. Essa postagem tinha (na manhã desta quarta-feira) dez vezes mais interação que a segunda de maior alcance entre as 130 postagens da entrevista.  Foram 1.200 retweets e 995 likes.

Temer (Golpe)

A pressa de informação exigida pelo novo cenário digital de debate tem sacrificado o planejamento e estratégia que uma assessoria de um político deve ter. O que acontece no Brasil, em se tratando de assessoria de comunicação, é que há falta de mão-de-obra qualificada que entenda (simultaneamente) de política e comunicação digital. Em geral, ainda, quem entende de novas ferramentas de comunicação, não está familiarizado com a política e vice-versa. E essa lacuna faz com que os políticos sejam expostos a erros frequentes na comunicação digital.

Construir a imagem de um político nas mídias digitais não é o mesmo que construir uma boa imagem de uma loja de café, por exemplo. Nem sempre (quase nunca) as estratégias de divulgação digital que solucionam problemas de um produto são eficazes para a estratégia de uma pessoa pública.

 

E pior, quase nunca o que funciona para um político, funciona para outro. No perfil do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, é possível encontrar imagens dele deitado no chão brincando com uma criança. Mas isso, para o perfil dele, é aceitável. A assessoria de Obama construiu ao longo de mais de uma década essa imagem digital. As fotos e posicionamentos que Obama divulga nos perfis são resultados de uma construção ao longo do tempo…

Aqui no Brasil, ainda estamos muito longe de termos assessorias que consigam esse resultado. Analiso que a de Eduardo Campos era a que mais se aproximava disso. O que ainda vemos aqui são políticos que atuam fortemente em períodos de campanha e abandonam os perfis com o tempo (quando não precisam mais de votos). Isso é pior que não ter perfil. Mostra que o que foi transmitido ao longo do período era ‘fake’.

Em outros casos, os políticos teimam em usar os próprios perfis (sempre). Aí pergunto como eleitor: essas pessoas não deveriam estar trabalhando? Claro que o manuseio próprio dos perfis é muito interessante, mas não o tempo inteiro. Principalmente para pessoas que já estão  em cargos.

Lembrem-se, a população não está em busca de um político que seja só um ótimo usuário de redes sociais. A população procura – e precisa – de bons administradores e políticos. Claro que se esses forem, também, bons usuários de redes sociais, melhor ainda.

Enfim, nós comunicadores, temos um longo caminho de descobertas e construção do universo digital!

 

Comentários do Site

  1. Carlos Peixoto
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    Bem colocado Cleo! “E ademais” (rá!), a relação dos “nossos” políticos com as redes sociais está pautada na concepção da maioria dos usuários brasileiros: o que menos importa é o conteúdo, desde que se consiga o maior numero de “seguidores e/ou curtidas”.

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