As meninas do Cruzeiro foram bravas. Mas nosso futebol também precisa ser

Ícaro Carvalho

Pelo segundo ano consecutivo, as jogadoras do Cruzeiro de Macaíba mostraram sua bravura na disputa do Brasileirão Feminino A2. Infelizmente, acabaram caindo mais uma vez na primeira fase, com a derrota para o Bahia, na Arena das Dunas. Mais do que lamentar a queda, no entanto, é preciso chamar atenção para a luta diária e constante travada por aquelas que fazem o futebol feminino no Brasil, no Nordeste e no Rio Grande do Norte, e reconhecer o esforço das atletas envolvidas para conseguirem se manter na competição.
Mas por que ressaltei isso? Simples: a maioria das jogadoras do Cruzeiro sequer recebe salário. Sim, é isso mesmo. No máximo uma ajuda de custo para transporte, alimentação ou alguma outra demanda que surja.
Esse cenário mostra o quanto o futebol feminino ainda precisa evoluir no Brasil, e como estados como o nosso carecem de fomento para garantir a presença de mulheres nas competições.
A começar pelo campeonato potiguar de futebol feminino: corriqueiramente, temos pouquíssimas equipes que disputam o torneio. Sempre são 3, 4 equipes que se desdobram, aos montes, para chegar ao dia do jogo e ter as 11 jogadoras para a disputa. Isso mostra o quão longe estamos da profissionalização da prática.
E qual o motivo de termos poucas equipes no torneio? Não acho justo jogar toda a culpa na Federação Norte Rio Grandense de Futebol, a FNF, órgão máximo do futebol do Estado. Porém, penso que a federação, com o nome e a articulação que possui, poderia procurar outras formas de fomentar o futebol feminino potiguar.
É bem verdade que o empresariado potiguar, nos últimos dois anos, chegou a patrocinar o Cruzeiro de Macaíba, por exemplo, o que já mostra uma sensibilização para a causa. Mas é preciso mais!
Porém, penso que há soluções que não irão demandar custos tampouco energias dos gestores do Estado. Quando se fala em futebol, logo se associa a patrocínio de prefeituras, que quebradas aos montes, lutam para pagar suas folhas salariais e manter a economia da cidade girando. O poder público não deve ter, como mote principal, o apoio ao futebol profissional, mas sim às competições e esportes amadores, de base, que proporcionam oportunidades aos nossos jovens.

Foto: Reprodução Instagram

Foto: Reprodução Instagram

Tendo isso em mente, por que não se criar um projeto de fomento ao futebol feminino junto às prefeituras? Essa parceria poderia vir na forma de custeio de itens básicos, como o uniforme, um local para treinamento, chuteiras, bolas… e claro, a remuneração para a comissão técnica e ajuda de custo para as atletas.
Essa ideia, vejam bem, é para que possamos ter acesso ao básico. É para passarmos a mensagem de que o Rio Grande do Norte pode não ser uma grande força nacional do futebol, mas que aqui, na terra pioneira do voto feminino no Brasil, lar de Celina Guimarães e Nísia Floresta, o esporte, como todos os outros espaços, também deve ser um lugar das mulheres.
Não é difícil de fazer. Mais do que recursos, faltam projetos, iniciativas e ideias. Apoiar o esporte da cidade não é apenas apoiar futebol masculino e torneios municipais. As meninas, como os meninos, precisam também do espaço para que uma rede se crie e se fortaleça. E é só com a criação dessa rede que o RN poderá figurar entre as cabeças do futebol feminino nacional.
É preciso que comecemos, urgentemente, um trabalho de base junto aos municípios e aos clubes. E é preciso que ABC e América, principais clubes de futebol do Rio Grande do Norte, também passem a olhar a causa, porque com o peso de suas camisas, podem incentivar outros a fazerem o mesmo.
Não será do dia para noite que as jogadoras de Extremoz ou de Macaíba se tornarão novas Martas, Cristianes, Formigas, Debinhas da vida. Isso requer condições, investimento e espaço.
Em tempo: as meninas do Cruzeiro de Macaíba terminaram a campanha em 3° lugar no grupo 3, com cinco pontos conquistados. Comandadas pelo técnico Bernardes Filho, elas venceram um jogo, empataram dois e perderam outros dois jogos. Bateram na trave, assim como no ano passado, na busca pela classificação. Em 2019, elas ficaram em 4° lugar, com sete pontos conquistados. Sorte no ano que vem para a equipe representante do RN.

Ícaro Carvalho é repórter da Tribuna do Norte e membro da equipe de esportes da Jovem Pan News Natal. Apresenta, diariamente, o Tribuna Esporte, às 11h, na 93.5 com Itamar Ciríaco e Anthony Medeiros

Comentários do Site

  1. Abadon, o Sicário.
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    Estão de parabéns as bravas guerreiras do Cruzeiro pelos motivos supracitados na postagem.
    Em 2012, creio foi a última vez em que foi realizado um campeonato estadual empolgante dessa modalidade.
    O América conseguiu montar uma equipe muito forte, inclusive contando com atletas de nível de seleção nacional, e o Abc, com medo de apanhar feio “emprestou” as camisas (com o escudo e tudo!) participando do certame se escondendo com o nome de “Monamy”.(rsrsrsrsrs)
    Coisa típica…se perdesse era o Monamy, se ganhasse era quem emprestou as camisas KKKKKKKKK
    Palhaçada….
    Claro que o América deu um liso se tornando campeão, e a treinadora do “Monamy” inconformada com as chibatadas que levou ameaçou entrar no tapetão prá melar a competição…Coitada. Apanhou tanto que perdeu o juízo. KKKKKKKKKKKKKKKKKK
    Mas essa de perder no gramado e tentar ganhar no tapetão a gente tá cansado de saber quem e acostumado a fazer né?
    Berrou muito e deu em nada, claro…
    Porém, se nosso futebol está falido a culpa é da federação sim! E totalmente!
    Incompetencia total dessa gestão que sabe muito bem comer migalhas na mão da CBF mas que não tem a menor iniciativa de buscar parcerias, patrocínios e subsídios para alavancar o futebol potiguar que caminha a passos largos para o fundo do poço!
    Uma gestão que deixou acabar os campeonatos de bairros, campeonatos amadores como a copa Arizona, Copa zona sul, matutão que tantos talentos revelou.
    Uma gestão que está deixando fechar as portas clubes tradicionais da nossa primeira divisão.
    Praças esportivas caíndo aos pedaços por falta de iniciativa.
    Nossos principais clubes amargando uma série D, imagine os outros…
    Uma gestão que deixou apodrecer um acervo vivo da memória do nosso futebol como o estádio Juvenal Lamartine e assistiu passivamente a demolição criminosa do Machadão.
    Nosso campeonato estadual é uma lástima. As categorias de base não disputam mais campeonato, disputam torneios.
    E ainda tem quem ache que a federação não tem culpa?
    Tá de brincadeira…
    Ainda bem que alcancei uma época em que o nosso campeonato estadual era disputado por doze equipes fortes, e durava o ano quase todo…
    Hoje vejo um clássico rei prá cinco mil pessoas e tenho vergonha.
    Mas…pense num mistério!
    Todo mundo vê a incompetencia dessa gestão, que está falindo nosso futebol.
    Todo mundo é testemunha ocular dessa fracassada administração. Reclama, esbraveja, chega até a acusar…
    Mas nosso glorioso presidente continua lá, firme e forte se perpetuando no cargo !
    A pergunta que não quer calar…como é que pode? A troco de que?
    Pense, num cabôco mais forte que o fumo de Abdias…
    O fato é que o futebol do rio grande do norte chegou a um patamar que não tem empresariado, projeto de “clube empresa” (KKK), parceria, patrocínio ou reza forte que levante mais.
    Está acabado.
    Mas cada um de nós, desde o torcedor, passando pela imprensa e os próprios clubes tem sua parcela de culpa no contexto pois aceitamos e assistimos a toda essa derrocada calados.
    Agora, já era.

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