*Cristiano Parente

Apesar de ser minoria o universo de atletas pagos com salários astronômicos, são muitos os pais que idealizam o sucesso de seus filhos no esporte. Para esses, é preciso saber, contudo, que o caminho de transformação de uma criança em atleta profissional é longo, árduo e exige intensa dedicação desde os primeiros anos de vida.

São vários os fatores que influenciam a transformação de uma pessoa em atleta profissional. Entre eles, está a questão de treinamento e especialização, que, para um possível sucesso, devem começar logo cedo, nos primeiros anos de vida, de forma a obter total domínio do conjunto de habilidades e soluções motoras demandadas pela modalidade esportiva escolhida.

O que, então, pais que imaginam um dia fazer de seus filhos atletas precisam saber?

Independentemente da modalidade esportiva, o contato com a mesma deve acontecer desde muito jovem. Grande parte dos profissionais bem sucedidos no esporte tiveram contato com ele logo aos três, quatro anos de vida e, desde essa idade, treinaram e se especializaram. Nesse sentido, é necessário destacar que essa tarefa exige dedicação altíssima, e que é dada de um jeito completamente diferente de como o esporte ou atividade física é promovido para as crianças como um todo, voltado para a saúde.

Para a saúde, inclusive, fazemos com que a criança experimente, vivencie diversas modalidades sem grandes preocupações técnicas, isso desde os primeiros anos de vida até aproximadamente os dez anos de idade. E aí sim, ela terá condições de escolher a atividade que mais se sente atraída para dar sequência como prática regular para ganhos e manutenção de saúde.

Porém, quando se trata da criação de um atleta, a história é bem diferente. É um outro tipo de vivência e de treinamento no esporte e que, obviamente, não é o ideal em termos de saúde. No esporte ocorre a especialização, que alguns estudiosos da saúde qualificam como precoce, ao se pensar na qualidade de vida e no melhor cenário de desenvolvimento físico ou mesmo social. Essa especialização envolve o treinamento no qual ao invés de oferecer todo o leque de habilidades para a criança, as especializamos, e isso precisa acontecer logo nesses anos iniciais de vida, fazendo ela treinar, aprender e evoluir as técnicas envolvidas naquela atividade esportiva de forma muito mais séria, longe de fazer parte de uma atividade lúdica ou de uma simples brincadeira.

O início de treinamento precoce não é sem motivo. Estudos mostram que para o aprendizado e desenvolvimento de cada habilidade acontecer, independentemente do esporte, é preciso que seja repetida pelo menos por dez mil vezes. Ou seja, no futebol, por exemplo, para se aprender cada comando como chutar uma bola parada, chutar uma bola nos mais diversos movimentos e dos mais diferentes jeitos, é preciso realizar esse grande volume de repetições em cada uma dessas situações. Ou seja, para se tornar um grande esportista, capaz de figurar entre os vencedores da profissão que receberão bons salários, é necessário muito tempo, treino e sacrifícios, que acabam tirando a criança do melhor ambiente de desenvolvimento saudável em todos os aspectos.

Dessa forma, com todo esse tempo dedicado ao desenvolvimento motor desde os primeiros anos de vida, ao alcançar seus vinte anos e o auge de sua capacidade e rendimento físico, o jovem já terá muito controle das habilidades treinadas exaustivamente e poderá se diferenciar e despontar como atleta profissional.

Agora, aos pais interessados em transformar seus filhos em atleta cabe um importante alerta: inserir uma criança no esporte para competição demanda que ela abdique diversos aspectos da vida, como o lado social, o lúdico, a alimentação menos radical, tudo para especializá-la e treiná-la para o desenvolvimento técnico de habilidades e de formação física necessárias para o esporte.

Esse empenho todo, vale dizer, não se traduz numa vida saudável. Ao contrário. Significa abrir mão de várias etapas da infância e da vida, e incluir as dores e o estresse físico e mental como algo a se conviver. É muito mais que a atividade em si. É a formação e preparação de um trabalhador profissional no esporte.

Se ainda com esses obstáculos, haja interesse dos pais em transformá-la em atleta profissional, para que ela aconteça com menor estresse possível, é fundamental ainda outros dois aspectos: que a criança seja apaixonada pela modalidade que pratica; e que tenha a genética perfeita para a determinada modalidade. Nesse quesito, não há o que se fazer. É nato. Já com relação ao amor pelo que se faz, esse deve ser a grande mola propulsora, principalmente para que a criança tenha dedicação fora do comum ao esporte. Sem ele, nada terá efeito ou resultado esperado.

*Cristiano Parente é professor e coach de educação física, eleito em 2014 o melhor personal trainer do mundo em concurso internacional promovido pela Life Fitness. É CEO da Koatch Academia e do World Top Trainers Certification, primeira certificação mundial para a atividade de educador físico.

Comentários do Site

  1. de Sordi Thiago
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    No meu ponto de vista, o texto vai na contramão do que vimos de exemplo nos países com grandes programas esportivos. A especialização sem dúvida deverá ocorrer em algum momento, porém não de forma precoce como retratado pelo autor. O desenvolvimento de um repertório motor vasto será sem dúvidas a base da aquisição das habilidades específicas, e para que isso ocorra a criança deve ser experimentada em diversos cenários motores, e os variados esportes poderão ajudar. O fato de citar exemplos vagos de atletas que começaram cedo não é ciência. Poderíamos citar outros diversos que tiveram enorme sucesso tendo se encontrado com a modalidade muito tardiamente.

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