O jornalista Cassiano Arruda Câmara, em sua Roda Viva desta sexta-feira (19), escreve sobre o fato do governador Robinson Faria atribuir a práticas dos últimos 50 anos para isentá-lo de responsabilidades que são suas: 

O governador Robinson Faria, para destacar as dificuldades que o seu governo vem enfrentando, dificuldades que são incontestáveis, tem adotado um discurso que procura isenta-lo de responsabilidade pelo quadro de dificuldades que encontrou, e que atribuiu a práticas dos últimos 50 anos. 

Pode ser. – Mas, ao contrário do que esse discurso pode induzir, não exime o próprio Robinson de sua parcela de responsabilidade na construção desse quadro que ele atribui à classe política de forma geral. Afinal de contas, desses 50 anos, ele teve posição de destaque em 29 deles, como Deputado Estadual, Presidente da Assembleia Legislativa, Vice-governador do Estado e Governador há cinco meses e meio, que como ele disse muito bem não são 50 anos. E puxando um pouco para trás se chegará às oligarquias referidas onde estão inseridas as origens do atual Governador, que vem de duas vertentes de algumas das famílias mais ilustres da sociedade norte-rio-grandense, sendo Faria do governador Juvenal Lamartine e do outro lado, a descendência do desembargador Tomaz Salustino, que, além do poderio econômico, foi uma das grandes lideranças políticas do Seridó, sem esquecer que, dentro desses 50 anos tão lembrados, o seu pai, Osmundo Faria, na época em que os Governadores eram escolhidos em eleição indireta, foi um dos seis nomes destacados pela Arena, o partido que dava respaldo à Ditadura, para ser nomeado Governador do Estado, tendo chegado a ser escolhido, mas terminou sendo abatido pela morte do general Dale Coutinho, Ministro do Exército, que dava respaldo a sua candidatura, justo no dia em que a escolha deveria ter sido anunciada pelo Palácio do Planalto, cumprindo o ritual da época. 

No seu diagnóstico, o governador Robinson Faria afirmou que o nosso Rio Grande do Norte “era um pequeno estado nordestino servindo à oligarquias políticas. Vocês sabem que não foi de uma hora para outra que a Saúde entrou na UTI. A falta de planejamento fez o Estado amargar o colapso da falta d´àgua. O sistema penitenciário faliu com um saldo negativo de quatro mil vagas. Virou rotina pagar servidor em atraso. As estradas em situação caótica de norte a sul. São lamentáveis os indicadores educacionais dos nossos estudantes”. 

Dificilmente se conseguirá modificar esse quadro pintado pelo Senhor Governador, embora existam – pelo menos – duas impropriedades que podem induzir a uma avaliação errônea do quadro retratado por ele: 1 – Quando fala na “rotina de pagar servidores de atraso”, nesses 29 anos só houve um Governo que pagou servidores em atraso, e teve o apóio parlamentar do próprio Robinson, não sendo justo incluir na mesma vala o Governo Rosalba que conseguiu pagar a todos os servidores, embora, no último ano tenha retardado o pagamento dos detentores do maiores salários, embora 90% dos servidores tenham recebido em dia; 2 –Quanto ao sistema penitenciário, a situação piorou – e muito – nesses cinco meses. O primeiro Secretário de Justiça e Cidadania nomeado pelo governador Robinson, o advogado mossoroense Zaidan Heronildes, teve uma passagem desastrada pela pasta, tendo criado as condições para que fossem registrados inúmeros motins em quase todas as unidades prisionais que foram totalmente depredadas pelos prisioneiros, deixando pior o que já era muito ruim, obrigando o Governo a desenvolver um grande esforço para colocar o sistema nas condições de quando assumiu. Esforço reconhecido por todos, mas que ainda não conseguiu recuperar o que foi destruído quando os presos assumiram o controle de todo o sistema. 

O governador Robinson Faria não está sendo original ao imaginar que o Rio Grande do Norte começou com o seu Governo, porque todos os sucessores de Ferreira Chaves (nosso primeiro Governador eleito) assim fizeram. Mas é preciso ter cuidado para não querer reescrever nossa história.