Para começar, podíamos analisar o termo: perda da virgindade.
Por que usamos a palavra perda?
Quando falamos em perda, vem logo a ideia de prejuízo… seria isso então? Temos um prejuízo em perder a virgindade? Por que não podemos pensar em ganho? É um momento no qual permitimos acessar nossa sexualidade… é quando nos entregamos à possibilidade de encontro com o prazer com o autoconhecimento através do outro… A cultura, a religião, a educação e a sociedade acabam por passar ideias errôneas que nos amarram em certezas que muitas vezes não são verdades. Aprendemos que as mulheres perdem a virgindade a partir do rompimento do hímen através da penetração. Isso é verdade? Acho esse assunto bem controverso… Reflita comigo: Se a mulher cair e tiver uma ferida interna que rompa o hímen ou se levar uma queda e esse “selo” se romper, então ela não é mais virgem? Se ela tiver nascido sem hímen, nunca foi virgem? E aqueles casos de hímen mais elástico que não se rompe de cara? Fica-se virgem para sempre? Se isso é verdade, qual a importância real da virgindade física de uma mulher? É preciso explicar então, que modelo/tipo de rompimento do hímen conta como “perda da virgindade”.
Rompimento do hímen é por penetração?
Precisa ser a penetração de um pênis? Se sim, pessoas com vagina que não se relacionam sexualmente com pessoas com pênis, são virgens? Há aqueles que dizem que se perde a virgindade depois de se ter tido relações sexuais. Certo, mas o que seriam relações sexuais? Sexo oral e sexo anal contam? Pois, é … Tantas perguntas e tão poucas certezas… Com tudo isso, parece que há apenas uma virgindade, quando, na verdade, no sexo existem muitas primeiras vezes que podem ser muito simbólicas.
Inclusive são mais significativas que a própria penetração.
Não é o significado da perda de uma pele, mas o seu significante para o sujeito. Uma das razões de nossa quase obsessão pela virgindade é o modelo sexual que ainda impera em nossa sociedade: o “coitocentrismo”. É uma concepção da sexualidade voltada para o genital e devedora da importância que historicamente concedemos à reprodução. Na verdade, a perda da virgindade envolve algo mais complexo como o início da vida sexual ativa, a percepção e interação do seu corpo com o corpo de outras pessoas, além dos vínculos de intimidade… O que está em jogo então não é essa pelinha inútil que você tem no corpo, mas o que você viveu e compartilhou fisicamente e emocionalmente com alguém… O buraco é bem mais em baixo… O simbolismo da virgindade feminina tem ainda forte peso na sociedade. Um peso cheio de preconceitos, crenças limitantes e muito tabu. O homem, quando desvirginado, parece não perder nada. Pelo contrário! É viril, macho e pegador. A mulher perde, mesmo que seja um pedaço minúsculo de pele… Parece perder o respeito, sofre por se tornar dona de sal sexualidade. Há não muito tempo, se a mulher não fosse mais virgem, não servia para casar e poderia até perder o convívio com a família. Mesmo em muitas sociedades que avançaram no conceito de igualdade entre homens e mulheres, a virgindade feminina mantém seu status de preciosidade. Podem acreditar. Vivemos um duplo padrão de educação sexual. O homem é educado para ser o garanhão e a mulher para ser apenas de um ou de poucos homens. Quanto mais a mulher se resguardar, mais será valorizada. Quanto maior o número de experiências
sexuais
o homem tiver, mais macho ele será. Precisamos rever conceitos… Acredito que sou um exemplo vivo de como as crenças podem ser limitantes para nossa vida. Minha iniciação sexual foi marcada por sentimentos bem ambivalentes. Por um lado, eu tinha certeza do que queria e da importância da sexualidade na minha vida. Por outro, por não ser casada, pesava insuportavelmente a culpa pelo fato de “terem me dito via educação” que se eu tivesse relação sexual antes do casamento, nenhum homem iria querer ficar comigo e tão pouco assumir um matrimônio. Ou seja, deixar de ser virgem parecia que me impunha o estigma de um ser indigno e, no momento em que eu acreditava me tornar mulher no sentido sexual, arriscava não ser mais desejada ou “permitida” para nenhum homem. Acredite! Eu tive febre alta quando me autorizei “ganhar” a sexualidade na minha vida. Passava pela minha cabeça desde castigo divino futuro, até descoberta das pessoas e exposição negativa na sociedade. Não posso esquecer que, além de todas essas angústias, ainda pairava o medo de ser rejeitada pelo autor da retirada da minha pureza. Hoje sei que o mais importante são as questões de ordem emocional e psicológica. Elas sim precisam estar amadurecidas antes da primeira relação sexual, independentemente da idade. O essencial é começar a ter a vivência sexual quando já se tiver também a responsabilidade das consequências desse ato. Não basta somente fazer, é preciso poder responder por isso! Assim não perdemos a virgindade, mas, ganhamos autonomia e autogoverno na direção do prazer sexual e de uma vida plena.

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