12F3013A-9593-4AE3-B5BA-00127E32922E

Norman Rockwell – Avô e Neto (1929)


Deusa romana do azar e da sorte, do acaso e do destino,
Fortuna encheu a vida do menino, de sonhos.

Que os desejos abençoados do avô carrancudo, um dia, se tornassem realidade.

Nem o Siri que sabe tudo, consegue calcular a distância entre os avós de hoje e os das nossas lembranças infantis.

Seres sisudos, versados apenas em poucas palavras,  na língua dos pequenos.

Por timidez, costume ou mais o que, homens de conversas curtas. Só falavam quando provocados.

Alguns até interagiam um pouco mais. Há relatos de afagos e até de beijos nos cocurutos.

Os miúdos eram iniciados  no ritual de estender a mão nunca apertada, pedir a bênção, segurar a do interlocutor por segundos e beijar a manzorra.

Deus te abençoe.

Com variações.

A bendição podia tanto ser delegada  ao santo da devoção, como acrescida de outros sentimentos.

Apesar do apelido pueril que virou nome de Antônio, Totô Jacintho mantinha a tradição. E a cautelar separação que os americanos resumem e definem muito  bem, generation gap.

Com fama de ser muito rico (e era mesmo), podia dar-se ao luxo de algumas outras excentricidades.

A começar pela resposta ao único cumprimento que os descendentes da segunda geração ousavam oferecer.

Deus te dê boa fortuna.

Desejo a ser  entendido como sucesso, destino, riqueza, fartura, bens materiais ou simplesmente, sorte.

E se o filho de uma das três filhas aparecesse com madeixas de cantor de iê-iê-iê, além da bênção suspensa, a ordem de ir ao barbeiro (corte sem patrocínio) e de voltar para completar o ritual.

Na carência de bancos, financiava empreendedores e abria crédito para quem concordasse em pagar juros. De 6%, não escorchantes ao ano.

Senhor de extensas plantações, fomentava  a produção agrícola regional pela intermediação da compra e venda do ouro branco.

Transitava entre pequenos, médios produtores, grandes usineiros e gigantes dos trustes estrangeiros.

Andava sempre com uma surrada pasta de couro, abarrotada de maços de dinheiro. As notas,  meticulosamente arrumadas, cabeça com cabeça.

Vestia roupas claras e folgadas.

Calças de linho S 120, brancas e engomadas. Cordão de ouro, prendendo o Patek Philippe na algibeira, alpercatas e inacreditável camisa de pijama. Com debrum e tudo.

Os critérios para acesso ao seu crédito eram rígidos.

Sob nenhuma hipótese, emprestava qualquer valor que fosse, a quem usasse cabeleira mais longa que à máquina zero, bigodes de pontas caídas e costeletas.

Que procurassem outro agiota aqueles que ousavam trocar os chapéus de massa ramenzoni por bonés e as de mesclita pela abominável moda das camisas de meia, depois rebatizadas de malha.

Comedido nos gastos, de ofício e exemplo, sabia dar valor ao dinheiro que arriscava somente nas cartas do baralho, em rodadas de relancinho com os amigos mais chegados.

Sinais exteriores de riqueza, só os carrões.

Dos Plymouth e Buick aos nacionalizados Simca Chambord e Galaxie LTD que nunca dirigia, por  nunca ter aprendido.

Mão aberta só quando incorporado do espírito do Natal. Coincidindo com as vendas das safras, o final do ano era o tempo de repartir os lucros. Sempre uma bolada para cada filha e  festas para os netos.

Pela inveja dos amigos, uma grana preta. Em valores corrigidos, uns cem dólares.

Abençoada boa fortuna.

(Publicação original em 04/10/2019)

5BA00937-DB28-48BA-A1B4-6BEEA4312A8F

Norman Rockwell – (1894-1978)                                             Em mais de quatro décadas, Norman Rockwell publicou 323 capas da revista The Saturday Evening Post.

 

 

 

Deixe um comentário