Alô turma revolta da Quarentena, o mundo é dual, e tudo tem seu lado positivo, né?

Lavar aquela pinha de louça, por exemplo, tem reflexo imediato em boas noites de sono. Quem diz é o cientista e diretor do Instituto do cérebro, da UFRN.

Ele deu a receita na edição do Globo deste sábado, com direito a chamada de capa. Confirmam o porquê.
Como esta situação de crise gerada pelo coronavírus pode afetar nosso sono?
De diversas formas. Quem está em recolhimento dentro de casa, cumprindo as orientações das autoridades de saúde, tem bastante tempo para dormir, mas pode estar sob impacto do medo. O medo da morte nesta pandemia é real para todo mundo que tem juízo. Esse medo pode atrapalhar o sono, principalmente se a pessoa estiver bombardeada por informações negativas, lendo notícias no celular até muito tarde. Os níveis de cortisol, adrenalina e noradrenalina sobem muito, e o corpo reage como se a pessoa fosse morrer a qualquer momento. Além disso, o comprimento da luz azul emitida por esses aparelhos atrapalha o sono.É ótimo estar informado, mas não pode se empanturrar.
Esse medo pode gerar insônia?
Pessoas que estão desesperadas para tudo voltar ao normal, muitas delas porque precisam trabalhar para sustentar a família, estão vivendo com ansiedade. Elas querem que a epidemia acabe, mas a realidade nega isso. Essa ansiedade pode causar insônia, o que os sábios antigos chamavam de “sonho com um tema único”. Se o governo estivesse fazendo o que deveria, garantindo uma renda mínima para o povo nesta crise, as pessoas poderiam ficar em casa com saúde mental. Como o governo não faz isso, agrava o lado psicológico das pessoas que precisam trabalhar de dia para garantir a refeição da noite.
Qual a melhor forma de encarar tudo isso sem perder o sono?
Quem vive pensando no futuro está ansioso, e quem vive no passado está deprimido. As pessoas que vivem com a cabeça no tempo presente podem encontrar o contentamento mais possível agora. Para dormir bem, o melhor a fazer é cuidar dos filhos, da casa, lavar muita louça.

O RECADO DOS SONHOS 

Aqui no Instituto do Cérebro da UFRN, a pesquisadora Natália Mota está fazendo um estudo. Ela criou um grupo de WhatsApp para receber relatos dos participantes sobre seus sonhos.

Ainda é cedo para falar de resultados, mas estamos vendo a epidemia se manifestar nos sonhos na forma de desastres naturais, por exemplo, ou de algum tipo de violência. São imagens que podem gerar medo ou sustos ao despertar.

E de que forma os sonhos podem ajudar?
Pessoas que relatam seus sonhos diariamente se conectam melhor com seu inconsciente, trazendo as informações para o consciente. Quem reflete sobre o sonho analisa seu conteúdo e o transforma em algo latente. Questiona as razões para aquele sonho, leva para a infância, busca significados em sua vida. É um conteúdo muito rico de significado. Essa pessoa acaba por fazer uma autoanálise. Quando você se dedica a dormir bem e analisar o sonho, entra num ciclo virtuoso.
Como entrar nesse ciclo?

A pessoa que não come direito e não faz exercício, que fica muito tempo na internet e toma remédio para dormir, está presa num ciclo vicioso. Numa situação como a que vivemos, isso pode colaborar para o desespero. Agora, quando faz tudo certo, vive o tempo presente e tem saúde equilibrada, com dieta sau- dável e exercícios, a pessoa dorme melhor, está no ciclo virtuoso, mais preparada para tudo.

Que medidas práticas podem ajudar no sono e nos sonhos?

Você precisa determinar a que horas vai para a cama, pensando em quantas horas de sono precisa. Então, apague todos os eletrônicos uma hora antes, para a melatonina (hormônio do sono) subir na hora certa. Não faça exercício, não beba álcool, nem coma muito nesse período. Pouco antes de dormir, é importante mentalizar que você quer registrar o seu sonho. Tem que trazer ao consciente a vontade de lembrar e relatar o sonho. Ao acordar, anote ou grave um áudio sobre o sonho antes de sair da cama.

Que outros capítulos da história se comparam com este em nível de estresse da população?

Carl Jung relatou que ele e os pacientes, antes da Segunda Guerra, sonhavam com banhos de sangue. O sonho é um oráculo probabilístico, que permite a simulação de um futuro possível, com base em tudo o que a pessoa já sabe. Não mostra o que vai acontecer, mas reflete a percepção da pessoa sobre o que pode acontecer. Na antiguidade, imperadores resolviam questões sérias com base nos sonhos. Muitos povos indígenas trabalham com os sonhos com uma fonte de conhecimento. Antigamente, os sonhos eram o ambiente onde a gente inventava, Depois, passamos a fazer isso na vigília … sonhando acordado, imaginando.

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