A RESISTÊNCIA DOS CHATOS

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Cabeça de Medusa (1597) – Caravaggio – Galleria degli Uffizi, Florença


Quando publicou em
1962 seu mais famoso livro, Guilherme Figueiredo não podia saber de duas coisas.

Que viria a ser primeiro-irmão do último ditador militar e que sua obra teria sido mais completa se já existissem as redes sociais.

O Tratado Geral dos Chatos esgotou o assunto e tornou-se referência para quem queria tratar do tema, por bons 60 anos.

É perfeito para classificar toda e qualquer chateação. Desde que analógica.

Para análise dos que trocaram as galochas pelos gigabytes, adaptações são preci-necessárias.

Os chatos digitais continuam facilmente identificáveis, mas a chatice virou característica física, incorporada ao fenótipo.

Prosseguem vencendo  pelo cansaço, com a insubstituível tática do enchimento de sacos.

Em grupos restritos e encontros presenciais, se iluminam mais ainda.

Pela riqueza de detalhes e dos acessórios à mostra.

Uma marca ostensiva no bolso da camisa, uma caneta em seu interior, com estrela de seis pontas, qual iceberg bem visível, já são indeléveis indícios.

O corte do cabelo ou os desenhos da barba também podem ser sinais exteriores que vêm de dentro. Do fundo da alma, de onde os neurocientistas arranjam tantos temas, igualmente maçantes.

Recentemente, circulou nos grupos, uma lista com os escolhidos por maîtres, garçons e donos de bares e restaurantes, com os fregueses, digamos, inesquecíveis.  E dispensáveis.

Como não houve contestações, a listagem deve ter sido criteriosamente elaborada e premiados os que realmente mereceram o honroso lugar no hall da fama.

Só o tempo dirá,  se continuarão com as mesmas performances após os novos hábitos  incorporados,  de distanciamento, entre as mesas dos botecos e bistrôs,  ou se vão preferir continuar aporrinhando somente as reuniões familiares.

Na quarentena, com todo apoio da mídia tradicional, diga-se,  televisiva preguiçosa, surgiu uma nova classe que desde as primeiras apresentações, já se mostrava merecedora de vaga no horário nobre.

Os neo-epidemiologistas de púlpitos, microfones e holofotes.

Resistiram até que os números fúnebres deixassem de impressionar e os picos de audiência não seguiam as curvas das suas previsões mais catastróficas que a tragédia acontecida.

A eles, todos os méritos e honras pelo título coletivo, conferido, por antecipação, de chatos do ano.

O chato é que essa turma, não satisfeita com o prêmio, nem trocou de jaleco, e continua azucrinando a paciência coletiva.

Agora, com os palpites científicos sobre prazos de cobertura  e percentuais de proteção das vacinas.

A esperança é que o coronavírus não aguente tanta chateação, e resolva ir embora de vez.


(Tema publicado em 04/08/2020, revisitado e revisto, por motivo de  registro de premiação)

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Narciso (1599) – Caravaggio – Galeria Nacional de Arte Antiga, Palazzo Barberini, Roma, Itália.

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

2 thoughts on “A RESISTÊNCIA DOS CHATOS

  • 23 de novembro de 2021 em 12:38
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    Tem gente que abandona o jaleco, digo, tira o jaleco e olha pro jaleco do outro, neste diapasão ver o reflexo dele em outrem, copiou?

    Resposta
    • 24 de novembro de 2021 em 04:54
      Permalink

      O Professor Sigmund já ensinava que há dois tipos de transferências: positiva e negativa.
      Ao querido leitor, pergunto:
      – Qual é a sua?

      Resposta

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