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O Bombeiro – Patrick Gibbons, pintor neozelandês contemporâneo


O sembrol não havia dobrado a esquina, e o estouro, em estampido escandaloso, daqueles que todos já diagnosticam pela ausculta, não foi arroubo de transformador no alto do poste.

Não piscassem as lâmpadas, no rastro da noite, ainda cabia um resto de sono.

A curiosidade só não foi maior que a fumaça escura vinda da rua e da a casa vizinha, labaredas altas no medidor da luz.

Momentos de decisão.

O que fazer, por onde começar e a constatação de nunca estamos preparados para situações que fujam das habituais.

Nós.

A patroa, a secretária doméstica, a vizinha, o porteiro do prédio em frente. Até os bombeiros que não atenderam aos apelos aflitos.

Um spoiler para antecipar a ausência de vítimas e como diz a mocinha da TV, a ocorrência apenas de danos materiais.

E as lições que ficaram.

Para quem desligou a energia da própria casa e empunhou a mangueira de 30 metros e jorro forte, mas não  deixou de ser admoestado.

Não se usa água em incêndio elétrico.

Deve ser crença  de quem não acredita em intervenções precoces.

Custa tentar, ou a Ciência preconiza, deixar arder a febre até precisar de hidrantes e tubos?

No início do curto-circuito, energia cortada, a queima de material  plástico pode ser resolvida com o precioso e ainda abundante líquido.

Depois, que venham os estudos duplo-cegos para comprovar a observação e a experiência pessoal no caso bem-sucedido.

As imagens dos soldados do fogo aguando prédios vizinhos quando o foco do incêndio foge do controle, no resfriamento do patrimônio ameaçado, resgatou a sensação ancestral de macaco alpha, com o peito inflado de fuligem.

Nestas horas, também aflora o saudosismo da falta que fizeram os extintores que não equipam mais os automóveis.

E marcou o imobilismo do guardião do prédio, em trazer a solidariedade de vizinho, na espuma anti-chamas que em condomínio tão chic, nunca falta.

Que seja revogada a norma para o não combate a incêndios de origem na rede elétrica, pelos soldados do fogo.

E pelo menos que não digam que só se deslocam  a pedido da companhia energética.

Ou com a casa já rendida.

Que se reconheça, a empresa da força e da luz atende prontamente os chamados.

Pelo WhatsApp e na voz da telefonista-robô, com a precisão da chegada.

Em seis horas, previstas.

O episódio isolado também serve de argumento para o uso das máscaras.

Em ambientes esfumaçados, têm serventia, mas na prática, na hora matinal, no arrabalde, ninguém lembrou do acessório obrigatório tão habitual.

No rescaldo das cinzas, a intrusa lembrança, há tempos jogada num canto da memória, para o título do texto, no apelido de um colega de internato.

Nas suas simulações de combate às combustões oníricas, os lençóis encharcados de urina e vergonha, secando ao sol, no bullying que ainda não sabíamos existir, a  auto-homenagem ao herói da madrugada.

***

(A publicação original, de 21/08/2020, sofreu reparos, exigidos pelos novos limites da liberdade de expressão).


1E0C4351-9AD9-4596-B3B1-AD4DD378C445Prometeu carregando fogo                                         
Jan Cossiers (1600-1671)

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