AZAR DO NETO CALORENTO

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Ricardo Ferrari


Que os netos são a sobremesa do banquete da vida, ninguém discorda.

A feliz frase, tantas vezes repetida, tem vários pais. E mães.

Ao usá-la quando foi avô, Cortez Pereira, orador inesquecível e administrador de rara visão,  traduziu em palavras, o sentimento, como se pela primeira vez, tivesse sido dita .   

Tem muito mais gente driblando todas as dietas para participar da última parte  do festim, antes do café amargo.

Quem sabe ouvir e falar a linguagem dos pequenos,  terá  sempre uma boa estória pra contar.

E quem conta um conto, aumenta um ponto. Avôs-babões, incluídos.

Pedro Bloch, médico, escritor, teatrólogo e jornalista, com vasta obra literária, mantinha na revista Manchete, a coluna semanal, Criança Diz Cada Uma.

Fatos que vivenciava no seu colsultório de Foniatria, transformados em deliciosas historietas.

Recebia também contribuição de leitores.      

Hoje sua caixa de e-mails estaria abarrotada de relatos, de perguntas inesperadas e respostas desconcertantes.

Mais estimuladas e com acesso fácil à informação, as crianças do século XXI são mais seguras em suas opiniões e desejos.

Na conversa descontraída, o avô foi repreendido por ter falado um palavrão.        

Aquela palavrinha que o Faustão soltava, duas em cada frase que dizia, no Domingão que mudou de dono.

O argumento que o pimpolho, de seis anos, já conhecia o significado do nome feio, não convenceu.

Eu sei o que é mas não digo na frente do meu avô.

Na alta-estação  de consumo aumentado com o quase fim das restrições pela pandemia, na Black Friday, os rebentos também quiseram ir às compras.

O aviso que a ida ao shopping era tão somente para passeio e lanche, foi logo esquecido quando surgiu a vitrine da loja de brinquedos.

As negativas da mãe de fazer qualquer compra sob o argumento que o pirralho já tinha muito com que brincar, foi contestado.

Um amiguinho tinha tantos brinquedos quanto ele e sua mãe sempre que vinha à catedral do consumismo, comprava mais um.

Ao lembrá-lo que não era a mãe do coleguinha, ouviu a lamúria que não esperava.

Azar o meu!

Na reta final para as compras dos presentes de Natal, toda atenção é pouca para não causar decepções.

Qualquer informação, mesmo as declaradas em terceiras intenções, não deve ser desprezada.

Se o jovem aprendiz de metereologista, como só os crescidos costumam fazer, reclama do calor nunca sentido antes que as mudanças climáticas entrassem no noticiário, pode ser apenas pretexto para dispensar presentes de pijamas por mais agasalhadores e fofinhos que a avó possa imaginar.

Está tão quente, que agora só durmo de cueca.        

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Ricardo Ferrari, pintor mineiro contemporâneo

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

One thought on “AZAR DO NETO CALORENTO

  • 18 de dezembro de 2021 em 13:31
    Permalink

    Não sou avó. Até homenageei a minha em crônica que saiu na Navegos e mais numa coletânea da ALAMP. Minha filha foi criada por mim, pela avó Santa e com a assessoria de Maria Preta. Parabéns pela sua crônica. Parabéns pelas pinturas escolhidas..

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