03EDD7D6-D338-48D0-9474-C12B777A36F1A escravidão já havia sido abolida, na interinidade da  princesa imperatriz,  há 23 anos, quando Francisco Teixeira nasceu no cariri paraibano.

Aos 18, conquistou a liberdade. Trocou família, Pocinhos e uma história nunca contada, pela busca do eldorado.

Aos pés da serra da Borborema encontrou seu shangri-lá.

Força física e disposição para o trabalho duro, suas credenciais e carta de alforria.

Na vila que se transformava em cidade, a galope, pelo  progresso que os cavalos de ferro transportavam, o primeiro emprego.

Aprendiz.

De calçador de ruas.

Recrutado pelos recém-casados senhorzinhos da casa grande, assumiu novas responsabilidades.

Fez de tudo.

Carregador d’água em pau de galão.

No ombro, duas latas de querosene jacaré, 20 litros, equilibradas, uma de cada lado.

Gestor doméstico do precioso líquido, garantia o mesmo frescor dos mananciais do Pequirí, com o controle rígido das reservas guardadas em jarras de barro.

Para os banhos, entregava na bacia com temperatura ao gosto do cliente. O serviço só estava indisponível nas quartas-feiras de trevas.

Às segundas-feiras, dia das compras, pegava na rodilha.

No balaio, trazia comida para um batalhão.

Teve seus amores e filhos mas nunca deixou o quarto amplo, arejado e exclusivo. O melhor da vivenda, de onde guardava todo o casarão.

Espalhava pelos alpendres, os passarinhos que pegava nas matas de Jacaraú.

Vendia e trocava.

Menos um, o defensor de sua honra.

A resposta aos  moleques que ousavam  gritar a frase proibida: Chico Preto morreu, ecoava num festival de impropérios do papagaio fiel.

Qual um miliciano, capturava os patrõezinhos  transgressores onde estivessem escondidos mas logo virava advogado de defesa, clamando da rigorosa juíza,  abrandamento das penas.

Hábitos salutares, o segredo da longa vida.

Almoço sempre depois das três da tarde. No cardápio, tudo que coubesse numa gamela de ágata, sem nunca faltar  feijão, farinha e muita mistura.

A receita envolvida em panos de prato era  abafada no fundo do armário até a hora do consumo.

Não recomendava requentar.

Cachimbo, fumo de rolo e mais de uma  garrafa de cerveja todo dia.

Poucas exigências. Desde que fosse de Arapiraca e a Brahma, casco escuro e à temperatura ambiente.

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Chico Preto e Marluce Arruda Diniz

Nunca votou. Nem quando foi impedido pela imperfeição da  assinatura, nem quando o cívico  direito foi estendido aos iletrados.

Sobreviveu aos senhorios e à igualmente longeva governanta, companheira de trabalho, amiga e confidente.

Por mais de dez anos, foi o único morador da casa grande.

Proprietário e patrão de si mesmo.

Faleceu, pacificamente, poucos meses depois de comemorar o aniversário de 100 anos.

Seus restos mortais repousam no cemitério de Nova Cruz.
No mesmo jazigo dos amigos de toda a vida, Lauro e Joanita Arruda.

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