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A filosofia brasileira mora no cancioneiro popular.

Nossos imortais viveram nos morros e periferias das grandes cidades, deixando nas poesias gravadas, melódicas lições de vida.

Quando fez a primeira escola de samba, Ismael Silva não poderia pensar que um dia não seria preciso permissão para se tratar de assunto tão marginal.

Deixa falar.

Para estes momentos de aflição, luto e incertezas, quando é hora de se retomar as atividades depois da maior tragédia da humanidade, nada como o conselho para não se deixar dominar pelo desânimo.

Tristeza não paga dívida.


(Publicação original em 24/08/2019)


O SAMBA PEDE LEMBRANÇA

Uma informação em matéria sobre a obra de um sambista,  despertou a memória de fatos ocorridos há mais de 40 anos.

Falecido em 1978, de um ataque cardíaco.

Aos 72 anos,  na época em que não seria considerado jovem demais para morrer.

Ainda mais que tinha cometido muitos excessos e tomado  poucos cuidados, numa vida louca. Incluídos dois anos de cana.

Esguio, andar malemolente, elegante, roupa alva,  tez de ébano. Voz grave de quem fumou a vida toda.

Daquelas pessoas que sabem, não precisar de apresentação.

Apenas famoso.

O residente de primeiro ano já havia percebido que notórios tinham prioridade para internar no  hospital com projeto de Niemeyer e jardins de Burle Marx.  Um cartão postal às margens da lagoa.

No currículo, já constavam cuidados no rei da noite e do teatro rebolado e resposta a parecer,  da maior poetisa ucraniana do Brasil.

Longa conversa só na admissão para registros cadastrais e clínicos. Depois, visitas rápidas nos dois ou três dias de pré-operatório. Médico super atarefado. Cumprimentos e a oportunidade de tirar dúvidas. Pós, previsão de alta, restrições, seguimento.

Início da noite,  posto de enfermagem e comando, nos adiantamentos das obrigações do dia seguinte, o silêncio violentado pelo pedido de socorro.

No tumulto, só deu para ouvir a última frase de quem imortalizou tantas outras.

-Doutor, estou morrendo.

Providências burocráticas e o serviço social aponta um entrave. A sobrinha, familiar responsável,  mora longe e não tem condições de conduzir as exéquias.

A lembrança de recente reportagem do Jornal do Brasil com  as agruras do compositor pobre e solitário, transformou-se em telefonema para a redação.

O furo e a ligação foram logo transferidos ao autor da matéria que de forma inédita, mencionou a sexualidade homoafetiva do parceiro de  Noel Rosa e Francisco Alves.

Lamentos de Tim Lopes. Contatos de Tim Lopes.

Ricardo Cravo Albin que há cinco anos havia produzido o último show, Samba Pede Passagem (com Aracy de Almeida), cuidou bem das últimas homenagens.

Pela manhã, na primeira página do JB, a notícia que Ismael Silva estava sendo velado no Museu da Imagem e do Som para ser enterrado, com dignidade,  no Catumbi.

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