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Retrato de Juscelino (1957) – Di Cavalcanti – Museu Casa de Juscelino Kubitscheck, Diamantina, Minas Gerais.

Ocorrido há 46 anos, um episódio de interesse muito particular e individual,  mostra mudanças de costumes e na política.

A começar pelas cartas que não existem mais, a não ser as de cobranças.

A obediência aos pais.

A elegância dos grandes homens públicos.

Houve um tempo de missivas e portadores.

Comunicação,  por bilhetes e cartas. Envelopes, selos e carimbos.

Assuntos urgentes, de vida e morte, mereciam telegramas.

Sempre para felicitações, parabéns ou pêsames. Se possível, em menos de  140 caracteres.

O chefe da delegação potiguar ao Encontro de Estudantes de Medicina na serrana Petrópolis, ao recorrer ao paitrocínio,  foi comunicado que teria a incumbência de entregar, pessoalmente, uma carta a um amigo na Rua da Alfândega, na eterna capital.

Às vésperas da viagem (em ônibus fretado pela universidade), o improvável e inesperado destinatário é revelado.

O ex-presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

Ponderações de falta de tempo, excesso de atividades, responsabilidades com a delegação, destino final em outra cidade. Qualquer desculpa para evitar o mico.

Debalde.

Encomenda aceita, ou viagem mais franciscana ainda, com risco até de não ser autorizada.

O conteúdo epistolar nunca foi revelado mas pela resposta, devia tratar da apresentação do filho que quando colasse grau em mais dois anos, precisaria de contatos e algum empurrãozinho no Rio Maravilhoso.

Em tempo de ditadura, ainda que começando a afrouxar com o quarto dos cinco generais, líderes de volta do exílio ainda estavam longe dos plenos direitos políticos.

Anistia nem ampla, nem geral nem irrestrita. Antes pelo contrário. Lenta e gradual.

Dúvidas, se ajudaria para um futuro estágio ou residência médica,  alguém que estava no avesso do poder.

Quem tinha o nome proibido de aparecer em jornais e noticiários de rádio e TV.

Com uma única exceção, quando da trágica morte, em 1976.

A namorada e a sine qua non prima e vela, iguais participantes do encontro etílico-científico, foram solidárias na missão paternal.

Desceram a serra.

Mas não subiram o elevador que levava ao escritório no banco de investimento do ex-primeiro genro do ilustre destinatário.

O portador já ensaiava o que dizer ao homem mais importante que iria conhecer na vida, quando ocorre um misto de decepção e alívio, personificado na classuda secretária  de blusa de seda pura e perfume Ma Griffe, ao informar que o alocutário não se encontrava naquele local.

Sugeriu o agendamento de um encontro já para o dia seguinte.

Desnecessário qualquer novo compromisso.

A missão já havia sido  considerada completamente cumprida.

Que a missiva fora entregue, a prova foi apresentada pelo carteiro de Nova Cruz, alguns dias depois. E mostrada a Deus, ao mundo e a todos os raimundos.

6727B9C2-1DFF-4B98-B198-5ADF5CFA522BAlguns meses depois os votos enviados pelo correligionário para êxito na eleição para a Academia Brasileira de Letras não evitaram a única derrota nas urnas. Faltaram seis medrosos sufrágios.

O presidente da confraria literária convidou o ex-presidente da república para um almoço e tentou explicar o que ocorrera. JK não deixou.

        Sou entendido em matéria de eleições. Quando se perde, não se deve perguntar o por quê.

Os acadêmicos  pleiteavam financiamento para construir um edifício ao lado do petit trianon, em terreno doado pelo leitor de discursos escritos por  Augusto Frederico Schmidt e Autran Dourado.

Se ele fosse eleito imortal, o apoio do governo militar não sairia.

Já não se fazem presidentes elegantes como antigamente.

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(Publicação original em 18/10/2019)

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Candangos (1960) – Di Cavalcanti- painel na Câmara dos Deputados, Brasília

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1956

Comentários do Site

  1. Otto
    Responder

    Apenas para aclarar: quem lia os discursos elaborados por Augusto Frederico Schmidt e Autran Dourado?
    O ditador de plantão? Ele – acho que era castelo branco – foi eleito para a academia?

    • Domicio Arruda
      Responder

      Os discursos mais importantes de JK são atribuídos aos dois escritores citados.
      JK perdeu a eleição ma ABL para o goiano Bernardo Élis e compareceu à posse do seus adversário.

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