1F9ACA9C-1D85-4E77-88B9-DD21E50937B4

Jango, Lauro Arruda, JK


Ocorrido há 45 anos, o episódio mostra como alguns costumes mudam.

As cartas que não existem mais, a não ser as de cobranças.

A obediência aos pais.

A elegância do grande homem público.

Mas a vassalagem aos poderosos de plantão, não tem jeito, resiste.


(Publicação original em 18/10/2019)


CARTA AO PRESIDENTE

Houve o tempo das missivas e dos portadores. Toda comunicação,  por bilhetes e cartas. Envelopes, selos e carimbos.

Assuntos urgentes, de vida e morte, mereciam telegramas. Sempre para felicitações, parabéns ou pêsames. Se possível, em menos de  140 caracteres.

O chefe da delegação potiguar ao Encontro de Estudantes de Medicina na serrana Petrópolis, ao recorrer ao paitrocínio,  foi comunicado que teria a incumbência de entregar, pessoalmente, uma carta a um amigo na Rua da Alfândega, na capital.

Às vésperas da viagem (em ônibus fretado pela universidade), o improvável e inesperado destinatário.

O ex-presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

Ponderações de falta de tempo, excesso de atividades, responsabilidades com a delegação, destino final em outra cidade. Qualquer desculpa para evitar o mico.

Debalde.

Encomenda aceita, ou viagem mais franciscana ainda, com risco até de não autorizada.

O conteúdo epistolar nunca foi revelado mas pela resposta, devia tratar da apresentação do filho que quando colasse grau, em mais dois anos, precisaria de contatos no Rio.

Em tempo de ditadura, ainda que começando a afrouxar com o quarto dos cinco generais, líderes de volta do exílio ainda estavam longe dos plenos direitos políticos.

Anistia nem ampla, nem geral nem irrestrita. Ainda pelo contrário. Lenta e gradual.

Dúvidas da ajuda para um futuro estágio ou residência médica por alguém que estava no avesso do poder.

Quem tinha o nome proibido de aparecer em jornais e noticiários de rádio e TV. Com uma única exceção, quando da trágica morte em 1976.

A namorada e a sine qua non prima e vela, iguais participantes do encontro,  foram solidárias na missão paternal. Desceram a serra. Mas não subiram o elevador que levava ao escritório no banco de investimento do ex-primeiro genro.

Quem mereceria alguma pancada era o portador que já ensaiava o que dizer ao homem mais importante que iria conhecer na vida.

Um misto de decepção e alívio quando a classuda secretária, de blusa de seda pura e perfume Ma Griffe  (ou similar), informou que o destinatário não se encontrava naquele local.

Sugeriu o agendamento de um encontro já para o dia seguinte.

Desnecessário qualquer novo compromisso.

A missão já havia sido  considerada completamente cumprida.

Que a missiva fora entregue, a prova foi apresentada pelo carteiro de Nova Cruz, alguns dias depois. E mostrada a Deus, ao mundo e a todos os raimundos .

B3B3EBD7-C017-4968-A8DF-FE73E59C2CDF

Alguns meses depois, os votos enviados pelo correligionário,  para êxito na eleição para a Academia Brasileira de Letras não evitaram a única derrota nas urnas.

Faltaram seis medrosos sufrágios.

O presidente da academia convidou o ex-presidente da república para um almoço e tentou explicar o que ocorrera. JK não deixou.

“Sou entendido em matéria de eleições. Quando se perde, não se deve perguntar por que”.

A Academia pleiteava financiamento para construir um edifício ao lado de sua sede, em terreno doado pelo imortal derrotado.

Se ele fosse eleito, o apoio do governo militar não sairia.

Já não se fazem presidentes elegantes como antigamente.

Comentários do Site

  1. SILVIO CÂMARA
    Responder

    Apesar de novo, conheço um pouco a vida de JK.
    Ele não deveria ter votado em Castelo Branco na eleição pós golpe de 64 no teatro montado pelo Congresso Nacional.
    De todo modo, gostei da coluna de hoje

Deixe uma resposta para SILVIO CÂMARA Cancelar resposta