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Ainda no período probatório do curso para aprendizes de cronistas, a necessidade do isolamento social exigia um plano estratégico de sobrevivência na blogosfera.

Sem guias nem manuais; sem  coaches nem mentores.

A memória mostrando sinais de desgaste.

A incurável incapacidade de lembrar datas, localizar lugares, reter fisionomias eram os pontos fracos, vulneráveis aos ventos de proa, desânimo e prenúncio inevitável de desistência à vista.

Livre de todos os outros compromissos, o tempo era o único aliado. Se pudesse resistir às más companhias do ócio e da compulsiva obsessão por notícias dos avanços da peste devastadora.

Ainda havia  uma possibilidade de honrosa saída à francesa.

A suspensão das atividades enquanto durasse a pandemia, ainda  não reconhecida  pela Organização Mundial da Saúde e sem prazo para começar oficialmente.

A vida amarrada em nós de medo, incertezas, impotência e espírito de sobrevivência

O górdio não resistiu a um golpe certeiro de uma luminosa ideia.

Por que não começar um diário?

Não seria difícil e quem sabe,  o registo de tudo que se passa no confinamento, e pela cabeça, não interessaria a algumas pessoas?

Os fiés leitores e outros por vir, atendidos nas necessidades.

Poderia haver algum retorno, comentários que motivassem a perseverança e inspirassem novos assuntos.

Lembranças, faltas, desejos, convicções, ausências, medos, incertezas, mudanças.

Um dia, no futuro que não tardará, alguém haveria de ler. E entender.

A estratégia de começar logo cedo, sempre adiada.

A rotina de fazer tudo sempre igual não ajudava.

A progressão da doença chegando cada vez mais perto, foi minando o que restava de ânimo.

Realidade devastada por notícias sempre piores que as esperadas.

O bom humor virando sorriso sem graça.

Gargalhadas nervosas.

O projeto ficou no título nunca publicado.

Diário do Medo.

Sem numeração, sequência nem capítulos.

Um ano depois, ao visitar o que foi publicado, a constatação que mesmo sem o rótulo, o cotidiano ficou registrado.

No assunto único que nunca faltou.

No garimpo por notícias boas, desanimador.

No sol do meio dia que continuou a raiar mas não protegeu.

No vírus que não respeitou as estações do ano, sem saudades do aconchego dos dias frios do hemisfério norte.

Nos mares de águas mais salgadas que não saciaram a sede do invasor.

Nos remédios e poções que acalmaram o pavor, unguentos negados pela Ciência.

Na réstia de esperança de uma  vacina precoce

Numa nova peça de vestuário para resistir a todas as coleções, modelos e ondas.

Na distância que outros não guardavam.

Em todos os restaurantes de  única e conhecida mesa.

Nos drinks sem brindes.

Num corpo sem forma, sem academia, sem pilates, sem dieta.

Nas férias da balança.

Na barba sempre por fazer.

Nos cabelos dos tempos de noites de sábados. Brancos.

Nos netos, de repente, crescidos.

Flashbacks de um ano passado no limbo,  em câmara lenta.

Sem bônus a ser descontado  quando a conta final for fechada.

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Heather Horton – Nascida em 1974 – Canadá

Comentários do Site

  1. Geraldo Batista de Araújo
    Responder

    A ideia de escrever um diário e realmente positivas. Estou até querendo fazer o mesmo. Um bom exercîcio para a memõria é fazer palavras cruzadas. Sou viciado..

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