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Que o jovem em formação é influenciado pelo professor, ninguém contesta.

Muito menos os pais capitalistas e bolsominions dos alunos do Colégio Marista.

Em seus noventa anos, a polêmica ali, não é inédita.

Este Território Livre localizou um sobrevivente da luta ideológica, testemunha de um dos períodos mais emblemáticos da participação política dos alunos e professores do tradicional educandário religioso.

Pacato cidadão, casado (primeiro e único matrimônio), quatro filhos, médico, funcionário público aposentado, morador de um bairro de classe média alta da zona leste de Natal, de onde foi entrevistado pelo Skype.

A princípio, relutou em conversar quando soube que seria sobre coisas do passado. “Não vale a pena. São fatos para esquecer”.

Diante da argumentação que sua lembranças poderiam aliviar as angústias de pais que não escondem a preocupação de estarem os filhos frequentando, mesmo que remotamente, aulas com conteúdo ideológico socialista, concordou em narrar os fatos ocorridos por volta de 1968, o mais violento dos anos de chumbo.

A política era assunto discutido em sala de aula?

A mesma Igreja que apoiava o golpe militar, além dos seguidores do movimento conservador Tradição, Família  e Propriedade, tinha também o lado que defendia ardentemente, o fim do regime de exceção.

E isso entrava no currículo escolar.

Quem liderava esta tendência?

No nordeste, a esquerda,  forte em Pernambuco, irradiava influências.

Miguel Arraes Francisco Julião com suas ligas camponesas, eram idolatrados.

Dom Hélder Câmara, defensor dos direitos humanos, pregava a Igreja voltada para os pobres e a não-violência.

Os religiosos daqui, o tinham como modelo e havia sintonia de pensamento.

Um dos seus auxiliares mais próximos, o Padre Henrique Pereira que veio a ser torturado e morto por um grupo do Comando de Caça aos Comunistas em 1969, foi frequentador assíduo do colégio, tendo passado uma temporada aqui, fugindo de ameaças.

Como era a participação dos alunos?

Os professores, claramente contrários ao regime militar.

Nas aulas de português as sentenças a serem analisadas, slogans contrarrevolucionários (contra a redentora) e a leitura de livros proibidos pelo arbítrio, estimulada.

A doutrinação era subliminar?

Não. Tudo era falado às claras e estimulada a participação ativa.

Além dos mimiografados, eram comuns os jornais murais de conteúdo social e político.

Pregados nas paredes e até nos troncos das mangueiras, em folhas de cartolina, desenhos, palavras de ordem e recortes de jornais de esquerda.

A volta da democracia, o fim da Guerra do Vietnã e ofensas aos milicos, estavam entre os 10 mais explosivos assuntos da época.

Quem eram os líderes?

A turma que terminou o científico em 1970 foi a mais engajada. E trágica.

Na volta das férias, um colega da turma um ano na frente da minha, havia  deixado o colégio e não se sabia para onde teria sido transferido.

Os boatos que aderira à luta armada só foram confirmados com a notícia do Jornal Nacional que um jovem terrorista teria resistido à prisão e sido fuzilado num banheiro da rodoviária Novo Rio.

O codinome divulgado por Heron Domingues era do colega José Silton Pinheiro, ex-presidente do Grêmio Estudantil Marcelino Champagnat.

Outros entraram em organizações clandestinas?

Daquela mesma turma, saiu o único brasileiro condenado à morte na história da República.

O hoje juiz aposentado Theodomiro Romeiro dos Santos, atuava em Salvador, no Partido Comunista Revolucionário Brasileiro. Numa tentativa de fuga, foi acusado da morte de um sargento da aeronáutica.

E os professores?

Os antigos, com minguados salários, eram naturalmente revoltados.

Alguns,  estudantes universitários que traziam de suas faculdades, as hóstias para a comunhão nas mesmas ideias libertárias.

Lembro de um em particular.

François Silvestre, de  português. Passou um tempo afastado enquanto tirava uma cana.

Morador da Casa do Estudante, foi o orador na saudação a autoridades em visita. A mulher do governador não gostou do discurso e sobrou pra quem levava fama de subversivo.

O maior influenciador foi  um religioso cearense, Irmão Francisco.

Ele era o líder, admirado por todos.

Um destes professores que a gente nunca esquece.

Você acha que os alunos de hoje estão sendo doutrinados e correm risco de se tornarem esquerdopatas?

Ninguém tira nem bota rebeldia em jovens. É inerente à idade.

Muitos neo-liberais, conservadores, eleitores do centrão, foram trotskistas na juventude.

Relaxem, senhores pais.

A boina de Guevara não cai bem em quem já passou dos 50.

Seus garotos haverão de votar em Laurinha Bolsonaro para Presidenta.

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Comentários do Site

  1. Domicio Arruda
    Responder

    ERRATA:
    De Lauro, o mano caçula, uma correção.
    Quem apresentava o Jornal Nacional, no ar em 69, nos primeiros anos, foi Hilton Gomes.
    Heron Domingues, vindo da Tupi depois que o Repórter Esso acabou, apresentou o Jornal da Noite na Globo, a partir de 71.
    José Silton Pinheiro foi morto em 72. Havia abandonado o curso de Pedagogia na UFRN.

  2. Napoleão Veras
    Responder

    Podem ser citados ainda nesse contexto, Severino, cujo sobrenome não recordo, aluno do primeiro científico/68, pupilo do irmão Francisco, fuzilado em São Paulo logo depois; e o irmão Hermano, o cérebro ideológico do grupo, autor de textos catequizadores, servidos diariamente a todas as turmas. Os irmãos-cabeça saíram ilesos da repressão.

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