Paludo é o segundo à esquerda de Dallagnol

Por Reinaldo Azevedo

Dario Messer, informa reportagem do UOL, disse em troca de mensagens com a namorada que ele e sua turma pagavam uma propina mensal a um grupo — não está claro formado exatamente por quais pessoas — integrado pelo procurador Januário Paludo, que ficaria com a maior parte do capilé.

Paludo é um dos chefões da Lava Jato, um decano e uma inspiração da turma.

Bem, é desnecessário dizer que a Lava Jato saiu em defesa do procurador, com destaque para Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa, de quem Paludo é uma espécie de conselheiro.

Para lembrar: Messer, que tem o epíteto de “doleiro dos doleiros”, não fez essa revelação no ambiente de um inquérito ou de uma delação premiada.

Não! Reitere-se: a afirmação estava numa troca de mensagens com sua namorada. Para que se sugira que estava plantando provas, ele teria de adivinhar o que viria depois.

A Lava Jato, fazendo um mau uso da Lei 12.850, a que trata das delações — já, por si, uma aberração em suas omissões —, instituiu no país a República dos Bandidos. Explico.

O processo político é hoje refém de delatores. Estes, sob a regência do MPF, secundado pela PF, decidem quem continua vivo e quem morre na vida pública.

A lei, note-se, é de dois modos omissa:

1: permite que o delator regule suas acusações a depender dos achados dos órgãos de investigação, podendo, a qualquer tempo, fazer o seu acordo; logo, o delator tem mais controle do processo, se realmente for detentor de segredos importantes, do que o MPF e a PF;

2: permite que o MPF e a PF, podendo fechar acordo a qualquer tempo, também defina previamente uma narrativa, usando o delator como instrumento de sua, digamos, “criação”.

Obviamente, não estou asseverando que o “doleiro dos doleiros” diz a verdade.

Eu poderia dizer que confio na investigação.

Ocorre que temos visto coisas no ambiente do MPF e da PF que recomendam um pé atrás. Mas vá lá. Que se investigue. Observo que a nota da Lava Jato em defesa de Paludo chega a ser ingênua.

O centro da argumentação está no fato de que Paludo não lidava com o caso em que Messer está enrolado. Como peça de defesa, a coisa é frágil. Bastaria que o procurador tivesse acesso a quem podia acelerar ou retardar a investigação da atuação do “doleiro dos doleiros”.

E a mensagem de Messer sugere que o pagamento da propina — num total de US$ 50 mil mensais — tinha justamente o objetivo de protegê-lo.

Reitero: não estou aqui na linha “Ah, os caras foram pegos!” O ponto é outro.

Notem que tudo o que põe, eventualmente, berlinda um membro da Lava Jato é descartado de cara, de forma peremptória, como se fruto de um grande complô.

Já aqueles que se tornam alvos da operação não têm nem mesmo o benefício da dúvida. Quando os membros da Lava Jato querem, promovem até investigações informais contra alvos selecionados, partindo da presunção de culpa.

Ou não lemos Deltan Dallagnol a mobilizar seus pares para tentar investigar ninguém menos do que um ministro do Supremo? Refiro-me a Dias Toffoli. Mais do que isso: deixou claro que iria usar um contato seu na Receita para obter informações sobre a vida fiscal do ministro e de sua mulher.

Não compro, de saída, nem as acusações da Lava Jato — e o site “The Intercept Brasil” já deixou claro como se fazem as salsichas por lá — nem as de seus acusadores. Mas uma coisa é inquestionável: já deu para perceber que os membros da operação e seus associados se consideram imunes a qualquer investigação.

É como se tivessem a testa marcada pelo Divino. Ninguém toca neles.

Já os que são considerados, de saída, inimigos, estão naturalmente expostos ao escrutínio de sua vida, por meios legais ou não. A investigação que Deltan encomendou, por exemplo, sobre a vida fiscal de Toffoli era ilegal.

O caso Paludo vem nos lembrar uma vez mais que a dita República de Curitiba — e seus braços em Brasília ou em qualquer outro lugar — é composta, na verdade, de uma aristocracia de fidalgos. Tal condição os coloca acima de qualquer investigação.

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