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O Nascimento de Vênus (1486) – Sandro Botticelli – Galleria degli Uffizi, Florença


Quando se pensava que a classe sofreria danos irreparáveis e poderia ser extinta, o balanço parcial  depois da fase mais crítica da pandemia, mostra  que os
manicacas adquiriram ainda mais imunidade.

Sobreviverão.

Trabalhos ainda em andamento já permitem prever que a submissão às esposas será maior e o novo normal não deverá afetar o domínio feminino.

Mesmo assim, a condição continua sem reconhecimento oficial, nem proteção de regulamentos, estatutos e leis.

Os dicionários não acertam o tom do verbete.

Nenhum  captou o verdadeiro espírito, nem descreve com exatidão o que é um manicaca.

Dizer que se trata de indivíduos pusilânimes, fracos, medrosos, frouxos, mofinos e mesmo imbecis, é injusto.

Não retrata o espírito nem a alma dessas pessoas.

No popular, o direto, dominado pela consorte, é mais verdadeiro.                                 

Só insanos discordam do que o mundo todo (inclusive elas), sabe.

As gramáticas ensinam que é substantivo de dois gêneros.

Erro repetido e nunca corrigido por nenhum filólogo.

Não se tem notícia de mulher que mereça o epíteto.                          

É consagrado pelo direito romano e tradição,  exclusividade do sexo masculino.

É bem verdade que de tempos em tempos, os conceitos precisam ser revistos.

Os saídos dos armários têm mostrado que o fenômeno acomete também os homoafetivos.

Há rumores que as paradas gaysnão saem com uma ala dos transmanicacas por um motivo muito singelo.

E fresco.

A falta de liberação pelos cônjuges opressores.

Esperava-se que o censo (suspenso) de 2020 pesquisasse a densidade demográfica da categoria.                         

O contingenciamento de verbas, não permitiu que o IBGE trouxesse a informação tão esperada e necessária.

Continuarão as polêmicas.             

Há diferenças regionais?  Entre cidades, quais as top ten ?  A faixa etária sofre influência? Qual a profissão campeã?

Pesquisadores independentes  constatam e é quase consenso que se trata de condição congênita.

Tipo, pau que nasce torto.

O controle é o elemento variável.

O que muda é só o comando. O maternal pelo marital.

É como urubu rubro-negro.

Uma vez, sempre. Haverão de ser até morrer.

Por mais que abundem neurolinguistas, nenhum deles anunciou linha de pesquisa para esclarecer tanta dúvida.

As tímidas tentativas dos portadores desta condição de se organizarem em grupos ou associações,  foram em vão.

E não culpem as medidas restritivas e o compulsório distanciamento social.

Até mesmo a agremiação carnavalesca O Cordão dos Manicacas já não mais existia.

A explicação foi a falta crônica de quórum.

As poderosas simplesmente  negavam, seguidamente,  autorização para comparecimento a qualquer evento ou reunião sobre o tema.

O tratamento, seguindo modelos de outros grupos de ajuda mútua, não consegue evoluir.

A elaboração dos doze passos  que poderiam livrar os anônimos da dependência, nunca conseguiu passar do terceiro.

Por unanimidade, o texto primitivo dos Alcoólicos Anônimos, 

Decidimos entregar nossas vontades e nossas vidas aos cuidados de Deus.

Foi trocado por,

Decidimos entregar nossas vontades e nossas vidas aos cuidados das nossas queridas e insubstituíveis esposas.

Aceitação unânime também do lema da sempre feliz categoria,

Manicaca bom é manicaca manso.


(A reedição do texto publicado em 31/08/2019, foi autorizada pela patroa do autor, com poucas alterações que não comprometeram a ideia original)

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Primavera (1478) – Sandro Botticelli – Galleria degli Uffizi, Florença

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Vênus e Marte (1485) – Sandro Botticelli – National Gallery, Londres

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