INCERTAS VACINAS

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São Jorge e o Dragão (1505) – Rafael Sanzio – Galeria Nacional de Arte, Washington DC


A  volta no tempo, numa espaçonave que só tenha autonomia para voltar um ano, vai nos desembarcar no mesmo aeroporto que recebeu as primeiras vacinas.

Que eram poucas, e de paternidade incerta.

Valia tudo para furar a imensa fila, cujo único atalho atendia trabalhadores da área da saúde, os mais expostos, vítimas que iniciaram a contagem que um ano depois, passa das 625 mil almas.

Um zeloso diretor-geral de um vetusto tribunal superior, achando que os semideuses do olimpo tropical  corriam o mesmo risco dos intensivistas, determinou a reserva de doses suficiente para os 11 supremos e seu batalhão de assessores, incluídos os encarregados de guardar e ajustar as sinistras togas.

A falta de uma legislação que controle as redes sociais, notícias verdadeiras misturadas a fakenews e sem parecer favorável dos comitês científicos, reposicionaram o Simancol, droga sem comprovação científica, em imunizante, e o obediente servidor acabou tomando remédio de pato. Pagou com a perda do invejado cargo comissionado.

Para entender o clima retrô da época, que não foi considerado pela mais inútil das CPIs, segue extrato da publicação neste Território Livre, em 29/01/2021


JANELAS VACINAIS

Está aberta a curta temporada para as trocas de jogadores.

É tempo de importar quem joga em time de qualquer lugar, neste mundão de Deus.

Até recorrer aos chineses, onde ciência e futebol florescem em incrível rapidez, para  firmar parceria.

Os melhores atletas do oriente já chegaram e na particpação inicial, em período de adaptação e treinamento, bateram um bolão com um combinado dos profissionais da saúde e da turma de masters.

Todos ficaram maravilhados com o que viram.

Jogam limpo, não derrubam ninguém e estão  até  sendo lembrados para o próximo Belfort Duarte, prêmio aos jogadores de melhor faiplay.

O descrédito inicial e preconceito contra quem vem de país sem tradição no ludopédio e outras ciências mais profundas, praticamente acabou.

As piadas e deboches não fazem mais sentido. Perderam a graça, o timing e a vez.

Nem os numerados garotos trelosos insistem mais com elas.

Todos os estados já têm em suas equipes, esses minúsculos jogadores que chegaram primeiro, acalmaram a torcida e começaram a resolver os problemas das defesas.

A escolinha deles, para formação de novos valores, instalada no bairro do Butantã nem São Paulo, será um celeiro de craques e dará tranquilidade nos embates que ainda virão, em sucessivas ondas dos vorazes atacantes.

Os que estavam  esperando que os ingleses sozinhos iriam resolver a parada, estão com barbas, cabelos, bigodes e mandatos de molho.

São lentos. Frios.

E não chegam pra quem quer.

É o mundo todo esperando contar com eles  para defender as cores dos seus times.

Agremiações tradicionais com muita história  e grana.

Só o interesse dos países milionários, produtores de petróleo, é suficiente para inflacionar o mercado.

O jeito é aceitar os que, expatriados, estão  inscritos na Federação da Índia.

Garantem os experts que são iguaizinhos aos súditos bretões.

As mesmas pessoas que acham Mumbai a mesma coisa de Brighton. E até, pasmem, Oxford.

Bola pra frente.

O importante é perseverar, como diria aquele falante ministro que a gente já não lembra mais nem do nome (e não é o Teich).

Dentro das quatro linhas, fazer tudo baseado na  Ciência.

Com disciplina, planejamento e foco. Muito foco.

O campeonato é por pontos corridos, com tantas prorrogações quantas sejam as ondas necessárias.

O adversário é tinhoso e cruel.

As regras não são claras.

Já deu pra perceber que do pescoço pra baixo, é tudo canela.

Na janela das negociações, não há tempo a perder.

Além dos reforços que chegaram, vão ser precisos muitos mais. Contados aos  milhões de frasquinhos.

O mercado norte-americano é complicado.

Cheio de exigências.

Avalie que só garantem bons desempenhos se mudarmos até o clima.

De cara, para entrar em campo, a temperatura deve estar abaixo dos 70 graus, na escala Celcius.

Não vai dar para ser usada nas canchas aquecidas pelo sol inclemente de Lagoa d’Anta e arrabaldes.

Os russos estão doidinhos pra sair do frio e cair na gandaia.

Andaram vendo um bom lugar para se instalar nos trópicos.

Gostaram muito da Bahia.

E quem não gosta da boa terra?

Os comunas não veem a hora  de bater uma bolinha com o combinado formado pelos nove estados nordestinos.

Um time que ainda não se recuperou do trauma  de ter comprado uns jogadores que prometeram, viriam cheios de gás e que nunca chegaram ao CT.

Dizem que empresários sabidões assinaram um contrato fajuto, não mandaram um só perna de pau e nunca devolveram a grana preta de 49 milhões de reais que receberam adiantada.

Falaram em rachadinha com alguns dirigentes, mas essas coisas são difíceis de seguir o rastro, sem tropeçar em cartolas de peso.

Tem uma galera por aí falando que de Cuba  estão querendo mandar pra cá um time completo.

Soberana F. C.

Garantem que arrasaram nuns treinos que andaram fazendo no Irã.

Prometem acompanhamento e vigilância de um esquadrão de apoio com recente experiência de demorada permanência nos nossos campinhos de várzea e periferias.

Pra quem acha que o dinheiro anda curto e não tem mais o que  investir, a última esperança poderá vir de onde menos se esperava.

A Venezuela pretende apresentar ao mundo sua arma e fórmula secretas. A preço de banana, variedade republiqueta.

As Gotas Miraculosas do Dr. Maduro.

Bastam dez, embaixo da língua para o coronavírus desaparecer rápido, sem deixar pistas.

Como um opositor qualquer do regime bolivariano.

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O julgamento de Salomão (1506) – Rafael Sanzio – Afresco no Vaticano

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

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