96F3B009-3342-4A15-86A0-5A60ADDB3238

              (Publicação original em 13/04/2019)

Nestes tempos de famílias separadas, nem por herança, nem por política, a lembrança de um tio que resolveu viver sua vida longe do seu mundo.

Passou a régua e a borracha no passado e foi recomeçar de novo.

Isolado.

Distante.

Longe de tudo.

Perto somente dele.

          MEU TIO INESQUECÍVEL

Tive pouquíssima, pra falar a verdade, quase nenhuma convivência com o Tio José mas não tem como esquecê-lo.

Contavam que havia saído para comprar cigarros e nunca mais voltou. Deixando pra trás casa, mulher e filhas.

No Rio de Janeiro,  formou-se em Direito.

Dizem que o Zuzinha (apelido familiar) não foi Juiz por ter ficado no psicotécnico.

Virou agente do IBGE.

Tornou-se militante divorcista.

Mandava cartas defendendo o divórcio e enaltecendo seu líder, o deputado Nelson Carneiro.

Na redemocratização ensaiou a criação do PRMPPartido Republicano pelas Mulheres no Poder.

Remeteu o manifesto da nova agremiação partidária para vários parentes mas por falta de adesões, sua carreira política acabou antes de começar. Só muitos anos depois, é que as feministas conquistaram o próprio partido.

Participava da vida familiar, à distância e de forma bem peculiar.

Para duas sobrinhas internas na Escola Doméstica, criou a expectativa do que teria na encomenda a ser entregue  nos Correios da Ribeira. Dentro, um sabonete Eucalol  e uma pasta Colgate.

A filha universitária pediu ajuda para a compra do primeiro carro. Pediu entre 15 e 20 mil moedas da época. Recebeu 17.500.

Convidado para o casamento de um sobrinho, postou um envelope cujo conteúdo era somente uma foto sua, 3X4, escrita no verso: O tio comparece assim.

Só voltou ao estado uma única vez. Tão logo foi aprovada a Lei do Divórcio.

Reencontrou a mulher,  no fórum, depois de mais de 30 anos e só se dirigiu a ela, após assinada a separação legal, para marcar o próximo encontro:

– Até o Juízo Final.

Conheci-o numa visita rápida quando ele morava numa pequena cidade da serra fluminense.

Sua casa, projetada por ele mesmo, na arquitetura contemporânea seria chamada  de loft. Cômodos exíguos. Um diminuto banheiro inspirado nos dos aviões.

O teto, uma laje, tornada rink onde patinava até perto dos 80 anos.

Parecendo muito feliz com a visita do sobrinho, apresentou-me a toda a vizinhança como prova que também tinha uma família.

Fez questão de tocar algumas peças num violino que há muito não era  afinado.

Para o almoço especial, num domingo com visitas, caprichou.

Serviu miojo.

Com ovo.

Deixe um comentário