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A senhora e sua empregada doméstica – Pieter De Hooch (1629-1684)


Há um ano,  quando republicado o post, Ciduca Barros, a fonte da informação, já estava internado.

Veio a falecer, dois dias depois da sua mulher, Aparecida. Vítimas da Covid.

Deixou em livros, estórias que viveu como funcionário do Banco do Brasil, reminiscências  do Seridó querido e saudades de um tempo que não volta mais.

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FAMÍLIA, PLÁGIO E PENDURA

Há muito se diz e se repete que o risco que corre o pau é o mesmo do machado.

Quem se atreve a pescar, nas águas baldeadas da memória já meio cansada, estórias que não merecem ficar no esquecimento,  também pode cometer o pecado venial da repetição. Ou mortal, do plágio. Involuntários.

Agora mesmo, por um átimo de lucidez não fico a dever o principal desta estória, acrescido de juros (daqueles escorchantes), a Ciduca Barros.

Foi ele quem há uns bons anos, pediu-me em nome da família o nihil obstat para publicar em livro, um caso passado com Dona Joanita, sua cliente no Banco do Brasil em Nova Cruz.

Mesmo sem nenhuma consulta fraternal, fiz o que todos teriam feito. Não só autorizei , como autentiquei e dei fé de ofício ao relato que sem nenhum reparo deve ter acontecido mesmo com a senhora nossa mãe.  O descrito era fiel ao jeito dela.

Uma das principais protagonistas da história da cidade. Com destacada atuação no comércio, política e vida social.

Era dela o primeiro acolhimento aos novos moradores. Que já recebiam de início, sem comprovação de qualquer garantia, crédito ilimitado para mobiliar e equipar a casa que também ajudava a alugar. Sem cobrança de comissão.

Fazia também o papel  de agente de empregos.

Ninguém ficava sem cozinheiras, babás, carregadores d’água e de balaios de feira. 


Sabia recrutar nos sítios, as pessoas certas para cada tipo de família.  Única exigência,  matricula escolar e frequência às aulas, para os jovens trabalhadores.

Seus fregueses e beneficiários preferenciais eram funcionários do estado, da mesa-de-renda, das correntes, oficiais, subs, sargentos, cabos, praças da polícia e principalmente os meninos do banco. Um dos poucos na região.

Em contrapartida, tinha livre acesso para interceder junto às autoridades. Para prender e soltar (soltava muito mais do que prendia).  

          Casava quem avançasse o sinal. Batizava os que escapuliam do avanço. 

Dava bom destino (e passagem para o sul) às sirigaitas que tumultuavam a harmonia dos lares.                   E reconciliava os casais

Mais um ano de seca braba. A fazenda sem quase nada produzir, por baixo na política e o comércio fraco, o pendura dos títulos bancários foi inevitável.

Já sem poder mais prorrogar  os vencimentos, repetidamente adiados e prestes a receber uma inspeção da auditoria, o diligente bancário  apontou que teria que recorrer ao cartório de protestos.

Foi aí que sentiu a reação que nunca poderia esperar da cliente (prime, personnalité)  tão especial:

-Se você fizer isso, Aparecida nunca mais arranja uma empregada por aqui.

Os papagaios foram esquecidos no fundo da gaveta, de chave perdida, até a chegada de melhores tempos. E negócios.

(Publicação original em 08/07/2019)

128DB4D5-9595-4B09-AB9F-D27C6E12FF39Senhora e a Empregada Doméstica (1667) – Johannes Vermeer

Comentários do Site

  1. geraldobatistaaraujo@.com.br
    Responder

    Ciduca foi um dos melhores amigos, morava perto de minha casa
    Todos os dias saímos para correr. Saíamos do Machadão até o Hospital Onofre Lopes, chamado então de Hospital das Clínicas. Aos domingos íamos até o forte e subíamos a ladeira correndo. Haja fôlego. No dia em que completei 70 anos fiz esse percurso.

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