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Lição de anatomia do Dr. van der Meer (1617) – Michiel van Mierevelt – Museu de Delft, Holanda

O trabalho intenso durante os momentos mais críticos da pandemia, não livrou a veterana profissão, de profundas transformações.

A desaceleração das atividades, com obrigações mais suaves, sem os vínculos  empregatícios alforriadas pela aposentadoria dos empregos públicos, está se transformando em ócio e descobertas de outras ocupações, igualmente gratificantes.

E a revelação  que viver não é somente preencher tempo, nem vida mansa custa tanto quanto se pensava.

O trágico exemplo da Lombardia, replicado em todas as regiões do Brasil foi o motivo de reflexão que tem trazido mudanças no perfil das equipes médicas.

A primeira ideia de recrutar médicos italianos mais experientes, quase todos aposentados, para a linha de frente,  foi um desastre.

Os números não foram mais cruéis porque a ameaça, no início da crise sanitária, feita pelo Ministro Mandetta, que poderia haver recrutamento compulsório, não se viabilizou.

Em nossa realidade, o costume de médicos aposentados do serviço público, seguirem  trabalhando por contra própria ou em subempregos,  foi atingido, sem misericórdia, pela avalanche impiedosa.

O que antes era trabalho mais ameno, virou perigo real.

Clínicos, generalistas, médicos da familia e psiquiatras, costumam invocar a lei da bicicleta para resistir à compulsória.

Só param quando caem.

Os cirurgiões e áreas afins, sem precisar quando chegam os primeiros tremores e a idade provecta, trocam  o bisturi pelo estetoscópio, antes relegado na parafernália tecnológica que estavam acostumados a usar.

Mesmo gozando de boas aposentadorias, estabilidade econômica e aparente vida tranquila, velhos plantonistas, continuavam trabalhando em hospitais e serviços públicos, sem vínculos trabalhistas, através de empresas terceirizadas.

Por paradoxal necessidade.

Quando as estatísticas são fechadas, dentre as pranteadas perdas, muitos deixaram filhos menores, mais novos que os netos.

Novos casamentos, pensões alimentícias, cônjuges jovens e crianças a cuidar e encaminhar na vida, foram motivação e combustível para tantos compromissos como se no início da vida profissional estivessem.

Estes registros foram impactantes na decisão do retorno dos sobreviventes às atividades dos que passaram longos meses distanciados da labuta da vida toda.

As mudanças chegam com a inesperada e explicável metamorfose. Pleno emprego já não existe,

Na crueldade da escassez de concursos e domínio das precarizações trabalhistas, a nova realidade confere o status de mão de obra cada vez menos qualificada

Haverá disputa mais acirrada pelos postos de trabalho com egressos das faculdades particulares multiplicadas,  imigrantes das escolas de fronteira e os que carimbarem seus diplomas nas universidades com ensino remoto.

Ex-médicos e bacharéis em Medicina, espécimes em formação, quem haveria de imaginar, em disputa pelos mesmos empregos?

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Consulta médica de uma gestante – Jan Steen (1626-1679) – Galeria Nacional, Praga

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Uroscopia, o Médico da Água – David Teniers (1610-1690) – Museu de Belas Artes de Bruxelas

Comentários do Site

  1. Geraldo Batista de Araújo
    Responder

    Cada dia fica provado que Medicina só deve ser praticada por médicos “de vera” como se diz lá em nôs. Auto medicação nem pensar.