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Roda Viva – Cassiano Arruda Câmara -26/08/20

Ainda bem, que, desta vez, ninguém se animou a colocar um aposto ao nome na cidade – tipo Natal, “capital do corredor do pó” – em razão do alto volume de ocorrências de tráfico de cocaína na carga de navios, misturado a frutas tropicais, daqui embarcadas para a Europa.

De repente, em 2018, o noticiário local foi invadido pela apreensão de toneladas do entorpecente no Porto de Natal, sem que exista nenhum núcleo de produção aqui por perto, e sem se saber como as fortunas estavam circulando por aqui, uma vez que eram apreendidas, apenas, a droga, sem se dizer como era a sua movimentação por nosso território.

Na semana passada essa Tribuna estampou uma reportagem de Luiz Henrique Gomes: “Cocaína exportada por Natal comprou aviões, carros de luxo e cavalos”, que começou a desvendar o mistério. Só começou.

Mostrou a existência de uma verdadeira empresa do tráfico, começando nos campos de produção, na Bolívia, Colômbia e Peru com toda a sofisticada logística para trazer a mercadoria e embarcá-la, daqui, pelo porto de Natal, para a Europa.

Desde a primeira apreensão, de tonelada e meia de cocaína, em novembro de 2018, que ficou patente que não se tratava de um negócio de pé-de-chinelo, mas de empreendimento milionário num volume nunca sonhado por aqui, em valores movimentados.

ESTRUTURA INVISIVEL

Três meses depois, em fevereiro de 2019, foi feita uma outra apreensão no Porto de Natal. Mais 1.2 toneladas. E naquele mês de fevereiro foi realizada a maior de todas as apreensões: 2 toneladas de droga de uma vez.

É preciso registrar que, nesse período – entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019 – em portos holandeses, foram apreendidos, na outra ponta, mais 4.3 toneladas de cocaína, embarcadas no Porto de Natal.

Em maio de 2019 também houve apreensões de droga num barco pesqueiro daqui de Natal, com tripulação natalense (mais 1.1 toneladas de cocaína), nas proximidades do arquipélago de Cabo Verde, na África.

Em dezembro de 2019 uma apreensão da droga foi feita antes de chegar ao Porto, em três galpões no município de Parnamirim, que funcionavam como estações de transbordo. A ação policial comprovava a existência de uma base local para dar apoio ao grande volume da droga embarcada.

Mesmo com todas essas evidências, ninguém ficou conhecendo os personagens das prisões aqui realizadas, nem a identidade dos integrantes locais da mega empresa de exportação de cocaína e seus parceiros.

SUJEITO OCULTO

Em relação ao crime institucionalizado, a Polícia Federal tem assumido uma posição no RN bem diferente do critério adotado aqui mesmo em outras operações que ganharam cobertura na imprensa.

Os casos que tinham políticos como alvo, mesmo antes de se ouvir o acusado, eram escancarados ao noticiário distribuído, e não apenas restrito aos acusados. Um renomado médico virou notícia no Jornal Nacional, por ter assinado um atestado que deu a um cliente a quem prescreveu um tratamento adequado. Esse fato apareceu no noticiário oficioso como um “escândalo”.

Baseada apenas na delação premiada de uma figura menor, o Desembargador Federal aposentado Francisco Barros, figura respeitada dentro e fora do Judiciário, foi preso e teve os “melhores momentos” de sua prisão apresentados na televisão. A delação do dedo duro atingia todo o Tribunal Federal acusado de nele funcionar um mercado de venda de sentenças.

E por causa dessa suspeita um Desembargador estava sendo preso e seu nome colocado à execração pública, enquanto toda a Corte de Justiça era colocada sob suspeita, com o aval dos melhores mecanismos oficiais de investigação/divulgação, começando pela Polícia Federal e Ministério Público.

Todavia, em relação a base natalense do tráfico internacional de cocaína, nem mesmo quando a casa caiu, e foi apresentado um organograma do crime com os seus quatro segmentos, da aquisição da mercadoria no exterior, à entrega na Europa, nem um nome do Rio Grande do Norte apareceu.

Daqui só foi liberada a foto de um carro de luxo (um Porsche conversível que custa uns R$ 500 mil) apreendido na zona rural de Parnamirim e um plantel de cavalos de vaquejada, num haras no município de Brejinho.

O nome do piloto do bólido e dos cavalos, não apareceu. Foto dele, nem pensar. Muito menos indicativo do seu papel na hierarquia da organização criminosa.

ALÉM FRONTEIRAS

Quatro dias depois da última apreensão de cocaína no Porto de Natal, a Polícia Federal de Pernambuco anunciou a realização de uma mega operação de investigação e combate ao tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro.

Foi então que se teve a dimensão da mega organização criminosa, espalhada por 12 Estados, mais o Distrito Federal, onde foram cumpridos 139 mandatos de busca e apreensão e 50 mandatos de prisão de 50 integrantes de quatro organizações distintas, que atuavam através de uma complexa engrenagem de importação, transporte, divisão e exportação do entorpecente, cuja principal via de escoamento era o Porto de Natal.

PEQUENA DIMENSÃO

A ideia que se tinha da organização em Natal, era tão pequena que se imaginava resolver um problema dessa dimensão com a montagem de um scanner no Porto, um equipamento importante que funciona preferencialmente em cargas de pequeno porte. No movimento de toneladas de carga, os mecanismos devem ser outros, com os que desbarataram a organização de atuação tão ampla.

Aqui no Estado, nessa grande Operação foi efetuada uma única prisão, sem que o nome do indiciado tenha sido divulgado (sabe-se apenas que a prisão foi consumada em Natal) e foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão na Grande Natal.

O natalense hoje sabe que, por aqui, atuava uma grande organização criminosa, pelo visto, talvez operada localmente por robôs, pois todos os nomes continuam protegidos, no caso valendo a presunção de inocência. Ao contrário de muitos outros inocentes que não foram preservados em outras operações mais ruidosas.

– O desembargador Chico Barros que o diga…

Comentários do Site

  1. observanatal
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    Eles continuam enviando a cocaína. Para cada fortuna pega, 5x mais passa. Todo mundo sabe o modus operandi e todo mundo finge que nada acontece.

    Seu Zé das Cuias teria o nome divulgado até a terceira geração por ter pego por engano uma casca de banana. Já os traficantes poderosos, não sai nada sobre eles. O jeitinho brasileiro funciona melhor para bandidos ricos.

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