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Roda Viva – Tribuna do Norte – 09/12/19

 

-Nova Cruz não é cruz nova,

pois já conta um centenário

é, porém um relicário…..

 

Neste semana, depois de 64 anos, estou vivendo o segundo ” 1º centenário” da minha cidade; no primeiro, 1º Centenário de Nova Cruz, eu aos onze anos de idade, mas já tendo sido obrigado  a deixar a cidade para estudar em Natal, como interno no Colégio Marista, tinha uma perspectiva e participei de episódios que nunca esqueci.

Por conta desse segundo 1º Centenário, fui atrás da história do primeiro 1º Centenário na visão de um menino, mas que preferia ser classificado como  rapazinho, para jogar sinuca no salão de seu Helano, filho do udenista Zizi Ramalho.

No primeiro 1º Centenário foi assim. Além daquelas  férias ainda tinha a festa do centenário da cidade uma comemoração de todos, unindo num mesmo espaço os pessedistas e udenistas, a torcida do São Sebastião e a do União. Apesar de óbvio, uma enorme novidade para mim..

Naquele tempo, a política partidária passava muito além do período eleitoral, tanto assim que cada partido tinha o seu time de futebol. Nós do PSD, o São Sebastião Esporte Clube, que jogava no Estádio Senador João Câmara, com o seu uniforme alvi-negro e era o time da massa. O pessoal da UDN pugnava pelo seu União, de uniforme vermelho e branco, que atuava no Estádio Deputado Djalma Aranha Marinho, e aparecia como o time da elite.

Nesse clima, a meninada terminava pagando a conta maior. Muitos que – como eu – estudavam fora, ficavam impedidos de conviver com os seus maiores amigos, porque terminavam frequentando lugares distintos; até a volta às aulas quando cada um contava um período de férias diferentes um do outro, porque quase não se encontravam…

DOIS CENTENÁRIOS

Com a letra do hino na cabeça, (letra de dom Marcolino Dantas, famoso pelo uso dos trocadilhos) eu fui saber daquele primeiro 1º Centenário comemorado juntamente com o Congresso Eucarístico. Era o centenário da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição. E Nova Cruz já não podia mesmo ser cruz nova, mais um trocadilho de dom Marcelino. Quanto ao relicário, além de rimar com centenário, fica por conta de sua eminência reverendíssima e a uma música chiclete que pregou na minha cabeça e eu nunca esqueci.

O que está sendo comemorado agora, é o Centenário da Lei Estadual nº 470, de 03/12/1919,  que eleva à condição de Cidade a vila de Nova Cruz. – Sobre isso, não existem dúvidas.

No cipoal de leis estaduais a próxima regulamentação da matéria é de 1938, quando são criados os distritos de Campestre e Serra de São Bento.

Na falta de uma pesquisa consistente nos resta registrar os municípios que foram desmembrados de Nova Cruz: São José de Campestre,  Serra de São Bento, Monte das Gameleiras, Lagoa D`Antas e Passa e Fica.

DEPOIS DA FESTA

O Bispo Auxiliar de Natal, dom Eugênio de Araújo Sales, dos bastidores, coordenava tudo. A parte religiosa e, sobretudo, a programação mundana  valorizada como uma forma de mostrar a preocupação da Igreja com o mundo real.

Na parte religiosa,  houve a ordenação do seminarista Antônio Soares Costa, novacruzense, sobrinho do vereador Salustino Casta (PSD). Depois, Monsenhor e Bispo Auxiliar de Natal e posteriormente  transferido para sua própria Diocese, em Garanhuns, Pernambuco.

A morte de Getúlio Vargas, a posse de Café Filho, seu impedimento, o mandato tampão de Nereu Ramos e a expectativa do Governo Juscelino Kubistchek recém eleito (que colocou a palavra desenvolvimento no vocabulário do brasileiro) ideia que d. Eugênio, através do SAR, antecipava  num país que procurava o seu rumo.

Da programação mundana do primeiro 1º Centenário, vários palestrantes, inclusive a maior de todos, Luís da Câmara Cascudo, que falou sobre as origens da cidade e provocou um desconforto, quando falando de improviso, sapecou:

-Diante disso, pode-me já…

– Mijar, Papai…

Cascudo registrou, cobrando o “riso dos imbecis” que não lhe perdoaram a falha de um cacófano, numa fala de improviso. Consequência da reação de um menino de oito anos  (meu irmão Leonardo), se dirigindo ao pai, Deputado Estadual, com a família toda ocupando a primeira fileira, do banco colocados no meio da rua, em frente à igreja matriz, ao lado da tribuna do orador. Era mesmo impossível que intervenção do garoto não tivesse provocado muito riso.

SEM VOLTA

Para atender ao professor Daladier Cunha Lima, portador da intimação “para escrever qualquer coisa sobre Nova Cruz”  para uma publicação da Paróquia (e eu complemento: paróquia quase sesquicentenária) terminei alinhavando algumas histórias vividas ou testemunhadas.

– E o que ficou depois do primeiro 1º Centenário de Nova Cruz?

Confesso nunca ter refletido sobre o fato, antes. Mas, para minha geração, depois do seu primeiro 1º Centenário, a velha Nova Cruz nunca mais foi a mesma. A credibilidade do monsenhor Pedro Moura mostrou que todos de Nova Cruz podiam conviver num mesmo ambiente.

Coincidência ou não, logo a seguir surgiu o Comercial, criado por um grupo de lojistas  Aderson Ribeiro, Pedro Ferreira, Valdemar da Paulista, entre outros. E depois do Comercial Atlético Clube (que criou um pós reveillon, a concorridíssima “Festa do dia 1º” de janeiro), Pessedistas e Udenistas ganharam um território comum para conviver, se divertir, beber, dançar e namorar. Sem as barreiras partidárias para separá-los.

 

 

 

 

 

 

 

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