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Fábricas em Asnières, vistas do cais de Clichy (1887) – Vincent van Gogh – Museu de Arte de Saint Louis, Missouri, Estados Unidos


O ouro negro, jorrando por tudo que era canto ou quintal, atraiu muita gente para o ainda ínvio oeste.

Daquela vez, os invasores  foram recebidos no país, por chuva de pétalas. Rosadas.

O frenesi era percebido em todo lugar. Uma cidade em movimento, na velocidade das carretas de equipamentos pesados, circulando dia e noite.

A boa linfa que o povo saciou, premonição do hino, parecia ser riqueza sem fim.

Muito mais que ocupação para técnicos e trabalhadores na atividade fim, qualquer ideia de um novo investidor,  era projetada em sonhos de sucesso e fortuna rápida.

Num tempo em que ainda não havia crescimento vertical, sem nenhum edifício para moradia, as casas conjugadas, em pares gemelares, eram plano e sonho de todo empreendedor. E de cada imigrante. Desde que fosse vinculado à estatal dos hidrocarbonetos ou alguma sua prestadora de serviços.

Em tempos de inflação medida em bigodes de sarney, aluguéis por tempo mais curto, de quatro a seis meses, prazo médio para o turn over do setor em ebulição, só para os modernos cangaceiros do óleo.

O casal de jovens médicos atraído pela oportunidade de trabalho e credenciamento na Previdência (bloqueado na capital), com planos de permanência mais longa, não se enquadrava nos critérios de admissibilidade para novos inquilinos.

A exaustiva busca por um lugar à sombra e uma residência arejada,  parecia ter chegado ao fim.

Um colega médico, mais antigo e aquinhoado, viúvo recente, havia acabado de dividir sua mansão assobradada, em dois duplexes.

No lado ocidental, começava a  funcionar uma clínica. O outro, disponível para  locação.

Preço em conta, abaixo da média.

A última inquilina, médica, demorou pouco. Provavelmente por ter encontrado outra vivenda mais a gosto.

Casa pintada de nova, caixa d’água espaçosa para dias sem abastecimento, quartos para o nascente, elevados, em pé direito alto, ventilação natural,  capaz de dispensar o ar-condicionado.

Perto de tudo e dos hospitais.

Mas foi só o contrato ser assinado, para aparecerem os poréns.

No histórico, o rumoroso suicídio da co-proprietária, no amplo banheiro, dividido em dois, na repartição do casarão.

E mais relatos arrepiantes. Do outro mundo.

A doutora não conseguia conviver com o medo nem com tanto jarro quebrado. Toda noite um.

Seu colega, cético, resolveu pagar (aluguel mais barato) pra ver.

Sua descrença sofreu abalo de congelar ossos, quando a secretária do lar relatou o acendimento autônomo do fogão e mais quedas de objetos.  Sem ventanias, motivos nem explicações.

A fama de destemido fica credora ao liseu, orçamento apertado e à prática da observação clínica cuidadosa.

Mistérios resolvidos.

Da escada helicoidal de ferro, em balanço, vibrando com a passagem dos treme-caminhões e tudo que a enfeitava, jogado para baixo.

Das bocas do fogão desreguladas, abertas mesmo com os botões na posição desligado.

E o vento aracati a soprar para sudoeste, do bico aceso para os outros supostamente apagados.

Passados 37 anos, os invasores batem em retirada, deixando buracos e fantasmas.

O sertão não virou mar, mas o sal virou petróleo.

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A Fábrica, Asnières-sur-Seine (1887)- Vincent van Gogh – Barnes Foundation – Filadélfia, Estados Unidos.


(O anúncio de novos e transformadores investimentos na região de Mossoró, trouxe à lembrança, este episódio já relatado há exatos dois anos)

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