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Cassiano Arruda Câmara – Tribuna do Norte – 22/07/20

Com 50 anos, desde que foi reinventada em Nova Iorque, pegando carona no movimento hip-hop, a arte do grafite pode ter se transformado em patrimônio da cidade de Natal, e marco desses anos ´2020, desde que tornou-se marco do renascimento do Beco da Lama, aliando criatividade e custo baixo.

Localizado num lugar privilegiado da Cidade Alta, quem primeiro falou no potencial turístico do Beco da Lama foi o curraisnovense Eudes Galvão, como Presidente da Emproturn que pagou um alto preço pela sua ideia fora dos padrões. Terminou virando motivo de gozação, isso nos anos ´70, no Governo Cortez Pereira.

O Beco não aconteceu por bons vinte anos, até ser descoberto por um grupo de boêmios que se sensibilizaram com um movimento de ocupação do Centro Histórico de Natal e entraram de cabeça com um capital de música e animação, e emplacaram o modismo de um encontro semanal nos dias de sábado.

A ARTE DO GRAFITE

A arte do grafite é uma forma de manifestação artística em espaços públicos. Sua definição mais popular diz que o grafite é um tipo de inscrição feita em paredes (fachadas). Embora existam, alguns relatos e vestígios, do uso dessa arte desde o Império Romano.

Seu aparecimento na era contemporânea se deu na década de 1970, no under graund de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Alguns jovens começaram a deixar suas marcas nas paredes da cidade e, algum tempo depois, essas marcas evoluíram com técnicas e desenhos.

O grafite está ligado diretamente aos vários movimentos de contestação da estética vigente, assim como aconteceu com o Hip Hop na música. Para esse movimento, o grafite é a forma de expressar toda a opressão que a humanidade vive, principalmente os menos favorecidos.

De uma maneira geral o grafite se coloca como resultante da realidade das nossas ruas. A definição mais popular diz que o grafite é um tipo de protesto feito em fachadas.

No Brasil, o grafite foi introduzido ainda no final da década de 1970, em São Paulo. Os brasileiros não se contentaram em repetir o grafite norte-americano, e então começaram a incrementar a arte com um toque brasileiro. O estilo brasileiro é reconhecido como um dos melhores do mundo.

E NATAL DESCOBRE O GRAFITE

A história do grafite em Natal tem tudo a ver com o Beco da Lama, onde chegou integrado a uma outra ação de governo que se propunha a promover a revitalização daquela área.

Foi a pintura que deu visibilidade a proposta da Prefeitura de melhoria das condições da rua Vaz Gondim, no Centro Histórico de Natal, aproveitando a existência de um movimento produtor de diferentes manifestações culturais.

Natal começou, no ano passado – 2019 – ganhando uma galeria ao ar livre, repetindo o que aconteceu na cidade de Miami que chamou algo parecido de museu à céu aberto, de “street art”, no bairro de Wynwood, que estava degradado, e com trabalhos de grafiteiros de todo o mundo tornou-se mais uma atração turística da Flórida.

Instalado o novo cenário, a Prefeitura entrou com um projeto de animação com a realização de shows inéditos, no “Natal em Natal” do ano passado (em dois palcos) passando pelo projeto “Choro do Caçuá”, na Praça Padre João Maria, que fica no mesmo sítio.

MODELO QUE DEU CERTO

O Modelo do Beco da Lama foi um sucesso, por permitir visibilidade para as ações da Prefeitura, investindo pouco recursos e motivando a população a desenvolver ações culturais paralelas, despertando vocações artísticas carentes de oportunidades.

Para cuidar da parte artística, que tem o mestre Câmara Cascudo e sua obra como inspiração, a Prefeitura recrutou um grupo de 40 artistas e designou a coordenação dos trabalhos ao natalense Miguel Carcará e ao renomado Dicesarlove, nome reconhecido no mundo do grafitti.

O projeto terminou conquistando o próprio prefeito Álvaro Dias, que se tornou um habituée da programação convidando representantes de outros diferentes segmentos, e animou-se a repetir a fórmula.

No centro histórico, o beco do Zé Reieira, oficialmente “espaço cultural Ruy Pereira” (na lateral do IFRN), reduto formado ainda nos tempos que ali funcionava a TV Universitária, e a produção dos primeiros tele-cursos do Brasil pelo Projeto SACI do INPE e UFRN, um marco do ensino à distância ainda não devidamente capitalizado, tornando-se ponto de encontro de artistas e descolados em geral.

ESCADA PARA O SUCESSO

Numa época, como essa, em que quase todos os recursos disponíveis estão mobilizados para a guerra ao Covid-19, a Prefeitura conseguiu ir além do noticiário da pandemia.

E poderá transformar a ação agora desenvolvida num marco da abertura do próximo verão em Natal, com a “repaginação” da escadaria de Mãe Luiza-Areia Preta, local preferido por moradores da Zona Leste para atividades físicas e receberá um novo tipo de intervenção artística em formato de mosaico nos seus degraus e garfite nos muros laterais.

Estão envolvidos os mosaicistas Gildeci Pereira, Liana Diógenes, João Batista de Lima, Rosangela Rocha e Wendell Eduardo, com a produção de 133 espelhos dos degraus de 0,15m de altura por 4 m de largura, com dois arcos medindo 30m² de área a serem revestidos.

O Secretário de Cultura, Dácio Galvão, aposta que “Será um novo marco na cidade e faz parte da política pública de intervenção artística com arte urbana para requalificar os espaços da cidade”.

Para ser um sucesso, basta repetir o que já aconteceu onde já houve esse tipo de intervenção. Uma novidade que parece ter vindo para ficar e até mesmo marcar uma época.

Comentários do Site

  1. Glacia Marillac Azevedo de Medeiros Rondon
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    Acho a iniciativa fantástica. Sempre fui fã desta arte pop. Humaniza as ruas e sempre passa uma mensagem especial. Apoio incondicionalmente essa e todas a iniciativas que levam arte e cultura de qualidade para mais próximo das pessoas.

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