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Las Meninas (1656) – Diego Velázquez – Museu do Prado, Madri


A longa quarentena escolar transformou pais em professores e supervisores de ensino, mas não reduziu o universo dos netos, mais vasto que se possa imaginar.

Seus limites foram alargados em fronteiras ainda não demarcadas.

Depois dos 14 dias que se seguiram à segunda dose da vacina libertária,  a tão esperada  flexibilização das visitas aos avós, chegou na hora certa e no limite da tolerância dos reclusos.

Nos preparativos para a reocupação do território perdido, a dupla de capetinhas foi surpreendida em planos quase secretos :

Vamos deixar pra fazer isso na casa de vovô. Lá, não tem bronca.

Eles e seus pareceiros são  diferentes das outras crianças de tempos mais tranquilos.

Gente que não chegou ainda aos dez anos, já desembarca com todas as inovações tecnológicas,  incorporadas de fábrica.     

Não precisam nem de manual de  instruções.

São auto-executáveis.    

Estimulados  tão intensa e precocemente,  não vão nunca ficar extasiados com modernismos.

Não vão querer amealhar nada mais do que precisam para viver.

Saberão administrar e prorrogar o tempo.

Logo perceberão que tudo passa rápido e é finito.

Inseridos dentro da inovação, desde bebês, manipulam aparelhos eletrônicos com a intimidade de quem foi apresentado nove meses antes de nascer.

Autônomos como nunca se viu. Parece até que foram preparados, sem qualquer treinamento, para a independência e autossuficiência.

Um só idioma é pouco pra eles. Começam a falar e passam a usar palavras de línguas estrangeiras no vocabulário mais básico.

Extrovertidos e desinibidos, são mais felizes, sorridentes e comunicativos.

Eles são a esperança que o mundo tem conserto.

Tudo vai ser muito melhor quando assumirem o comando.

A carga de estímulos é a melhor herança  que estão recebendo.  A ferramenta que usarão para reparar os mal feitos das gerações que os antecederam.

Pode-se pensar que tudo isso é conversa babada, contada e repetida  por avô-coruja.

As evidências são constatadas por estes  observadores privilegiados.

Na comparação com os próprios filhos, as diferenças são percebidas  com muito mais clareza.

Quem mais que os avós, se deleita com um perfil psicológico (e astrológico) traçado por pirralho de quatro anos que sem censura, enfrenta a reprimenda de uma tia com argumento inesperado.

Eu sei porque você é tão braba. É  porque você é de Touro.

Ou com o irmão, prestes a completar a primeira meia dúzia, ao desobedecer a orientação materna para o lanche saudável.

Tia, eu vou querer mesmo o milkshake de nutella.  Se minha mãe reclamar, não se preocupe. Eu me responsabilizo.                 

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La Infanta Margarita (1653)- Diego Velázquez – Museu do Louvre, Paris

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