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O Escamoteador – Jheronimus Bosch (1450-1516) – Museu de Arte da Filadélfia, Pensilvânia


Estórias de tipos marcantes em lembranças da infância, se repetem, trocando apenas os lugares onde aconteceram.

Jogadores compulsivos, fortunas perdidas num dia de azar, patos e cabreiros, figuras que enchem a memória de quem era, pela idade, proibido de participar  do festival de ilusões.

Tributino era diferente.

Nômade, não deixava que seus pequenos golpes fossem conhecidos.

De repente, sumia.

E num passe de mágica, aparecia onde mais estivesse rodando os números da sorte.

Para o menino curioso, aquele senhor irradiava mistério. Só podia ter algum superpoder, mágico.

Um mandrake de roupas brancas,  iludindo o agreste.

Ninguém sabia ao certo, mas dizem que era das bandas de Macau. Voltava de vez em quando,  sempre nas festas de fim de ano, na quermesse da paróquia e nas campanhas eleitorais.

Circulando entre as barracas do resplandecente cassino a céu aberto, armado na rua grande.

Divinos vícios, invisíveis à lei, permitidos pela santa causa e abençoados pelo pároco.

Bem vestido, paletó de  linho branco, engomado, sapatos de duas cores, cabeleira alva, penteado armado em pasta de brilhantina. Chapéu ramenzoni à mão para alguma necessidade.

Na faixa dos 60.

Parecia conhecer todo mundo, e ser velho conhecido dos não mais tão jovens .

Com fama de sabido, entendia de tudo.

No inconsciente coletivo, um irresistível vivaldino.

Na noite animada, a roleta girando solta, muitos apostadores e  uma plateia dos que já não tinham o que gastar e outros tantos, criando coragem para depositar toda a fé no número da sorte.

Tributino foi chegando com jeito de quem nada queria. Além de apreciar o balé e a sinfonia do monte de fichas sendo empilhadas, derrubadas, misturadas às dos perdedores e entregues aos sortudos ganhadores.

Ou recolhidas pelo rolo do dealer na zero roleta.

Com gestos, caras, bocas e trismos , demonstrava aos circunstantes que também participava de cada sorteio.

Num jogo particular, silencioso, imaterial.

Nos sorrisos de satisfação, os poucos momentos de  alegria pelo pequeno ganho; nas carrancas, a decepção das muitas perdas.

A empatia com os jogadores de verdade foi evoluindo, a até o ponto da aceitação tácita no embate imaginário.

Ganhava ou perdia, sem precisar ao menos comprar nem depositar fichas.

Passou a entregar ao croupier o dinheiro correspondente ao que dizia ter apostado em pensamento. E perdia. Sempre em valores pequenos.

A banca animada com a sequência de rodadas desfavoráveis ao agora fiel apostador, aceitava de bom grado.

Até que o discreto jogador deu um soco no ar, e falou para todos que vinham acompanhando sua sequência de infortúnios, que a sorte finalmente bafejara em seu favor.

Que naquela rodada havia jogado todas as fichas, fictícias, num lance reto e era  merecedor de um prêmio de 35:1

Bolinha parada, apostas suspensas e caso pra ser resolvido pelo delegado.

Ou pelo padre.


(Publicação original no
dia das crianças, há dois anos)

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As Tentações de Santo Antão (1500) –  Jheronimus Bosch – Museu de Arte, São Paulo

 

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Detalhe do quadro “As Tentações de Santo Antão”

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