contraste

Por Carlos Eduardo Emerenciano 

Dezembro de 2018. Muitos viviam a euforia pela vitória de Bolsonaro. Alguns andavam pelas ruas orgulhosos e desafiadores, trombeteando um novo tempo patriótico de virtudes, onde os “vagabundos” não teriam vez.

Eu e o meu filho entramos numa banca de revistas. Lá dentro havia um senhor bem animado.

Falava da sua vida dividida entre os filhos e os netos. Era Coronel da reserva. 2 filhos moravam no Rio de Janeiro e 2 em Brasília. Logo viu o meu filho Arthur e puxou assunto. Bem animado, disse que torcia pelo Botafogo.

Pensei logo: “este senhor é boa gente”.

De repente, aquele avô aparentemente amoroso, pai de família dedicado, boa praça, virou-se para mim, não sei por qual motivo, e falou: “você sabe com quem eu trabalhei?”. Eu não tinha a menor idéia. “Com o Coronel Brilhante Ustra”. Diante do meu olhar atônito, ele complementou: “não se assuste, nunca fiz nada que machucasse pessoas de bem”.

Fiz um sinal para o meu filho e saímos. Arthur não entendeu o motivo da angústia que eu sentia. Que orgulho arrogante, que boçalidade desprovida de valores, fariam com que alguém revelasse a um desconhecido ter sido um torturador? Contei aquela história a alguns poucos amigos.

Hoje, lendo os jornais, vi a notícia no Estadão da morte de Gilles Lapouge. Chamou-me atenção as palavras de Júlio Mesquita Filho: “sua lacuna jamais será preenchida, homem de uma cultura e de um refinamento que não existem mais nos nossos dias, onde a boçalidade impera”. Logo, fiz um contraponto com o insólito ocorrido em dezembro de 2018.

Para não dizer que não falei de flores, ontem me emocionei com a “live” de Milton Nascimento.

A sua voz inconfundível embalou uma fase muito bonita da vida brasileira, quando reencontramos a democracia.

Deixo-os então, na certeza de que o mal não dura para sempre, com Coração de Estudante: “Há que se cuidar da vida/ Há que se cuidar do mundo/ Tomar conta da amizade/ Alegria e muito sonho/ Espalhados no caminho/ Verdes, planta e sentimento/ Folhas, coração/ Juventude e fé”.

 

* O autor é advogado, arquiteto e leitor deste Território Livre 

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