REVELADO O QUE FAZEM DO NACO DA MAÇÃ

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Adão e Eva no Jardim do Éden (1550) – Ticiano Vecellio, Museu do Prado, Madri

A maior empresa de tecnologia do mundo envia aos seus usufrutuários, relatórios da participação nos negócios.

O somatório do tempo de uso de cada um, grandeza medida em bytes, é a cova rasa que nos cabe no seu  latifúndio.

Entre muitas informações, destaque que nos últimos sete dias, a cada 24 horas, seu produto de maior sucesso ficou nas mãos do destinatário, menos de duas horas.

Devem ter achado muito pouco.

Por isso a preocupação e o sub-reptício estímulo ao consumo, sem esquecer que provectos também tornam-se adictos em tecnologia. E que smartphones viciam.

Acompanha o demonstrativo, um alerta para o fraco desempenho e o puxão-de-orelha, que o cliente já foi mais participativo.

Em gráfico de powerpoint, tão convincente que parece feito por procurador de lava-jato, a vergonhosa  redução de humilhantes 74% na média histórica.

O detalhamento mostra que as redes sociais consumiram quase metade do tempo.

Não chega ao ponto de precisar quantas mensagens de agradecimento pelos votos recebidos de saúde, paz e felicidade no ano novo, foram postadas e se padronizadas, tomaram ou não, menos tempo.

De leitura (que tenha sido de coisas edificantes e de futuro), somente míseros  12 minutinhos.

A rolagem das telas e o vôo de águia sobre as manchetes dos jornais e blogs bem que explicam o fraco desempenho e o fiasco  na fidelidade do ciberleitor.

A informação que toda  produtividade aferida foi realizada em 14 minutos, além  de provocar um súbito prurido retroauricular, deu margem para psólica contestação.

É bem verdade que o período analisado incluiu dias à beira mar e leitura em retrógrados meios analógicos, o que pode explicar mudanças nos hábitos de qualquer um.

O inexplicável é que a produção dos textículos,  à razão de um por dia, continuou sem interrupções .

Como são produzidos ou reprocessados a dedo indicador, na telinha brilhante, das duas, uma.

Ou a escrita,  tão  rápida, atingiu o estágio de prestidigitação ou trata-se de lamentável mas aceitável equívoco de quem tem minucioso trabalho a fazer, enquanto todo mundo ainda curte a ressaca das festas de fim de ano.

Dá pra desconfiar na embriaguez provocada  pelo  pedaço da maçã, arrancado à dentada, e utilizado pelos viventes no vale do silício, para produzir sidra, bebida das  mais  consumidas nesta época do ano.

Não custa lembrar que no Jardim do Éden, os infratores que deram as primeiras mordidelas na fruta proibida, ouviram a maldição repassada  para a descendência e herdada por toda a humanidade, até estes nossos tempos digitais.

…. com dor, comerás dela todos os dias da tua vida.

***

(Esta leitura consumiu dois minutos do precioso tempo do persistente leitor,  foi tema  neste naco de Território Livre, em 8/1/20)

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La Gloria (1554) – Ticiano Vecellio, Museu do Prado, Madri

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

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