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A rua estreita, tranquila, em ladeira tortuosa, calçada de basalto (ou seriam as pedras, paralelepípedos?) fazia um longo caminho pelo sopé do morro, antes de voltar quase ao mesmo ponto de partida. E ao  trânsito infernal de sempre.

Já era famosa. Havia aparecido nos telejornais e nas primeiras páginas por conta de uma árvore e das muitas pessoas barulhentas que a defendiam.

No meio do caminho da especulação imobiliária, bem no lugar escolhido para a entrada da garagem do espigão, havia uma figueira.

Havia uma frondosa figueira no meio do meu caminho no Rio de Janeiro.

Rua Faro, número esquecido em 40 anos por outras pousadas, terceiro andar.

Seis inesquecíveis lances de escadas e nenhum elevador. A uma padaria, um armarinho e um posto de gasolina do hospital.

Para quem já havia dividido o quarto da pensão com os futuros colegas médicos, na Esplanado do Castelo e o conjugado do Humaitá com a futura mãe dos filhos, o dois quartos do Jardim Botânico era o lugar perfeito para a família começar a crescer.

Da janela, entre as brechas de um edifício e outro, uma nesga da lagoa lembrava que o sonho da cidade maravilhosa era real.

Da lateral, a benção do Cristo de braços abertos, de cujo suvaco, os animados vizinhos tiraram inspiração para o bloco que arrasta multidões no carnaval.

A proximidade com o planeta Vênus Platinado e o Tablado, fazia o encontro de promessas, futuras e celebridades de capa de revista,  coisa comum.

Um encontrão com a madame, jovem e elegante, na feira do domingo ou um cumprimento ao cabeludo magricela, só de sunga, no balcão do chopp do português da esquina, bem que podiam, num texto de ficção, terem como personagens, Marília Pêra e Raul Seixas.

Alguns leitores iriam acreditar.

Na portaria, estilo joga-a-chave-meu-amor, a oportunidade de conhecer os poucos vizinhos.

O favor de um ou outro telefonema em caso de doença ou saudade aguda era sempre bem-vindo e necessário.

Em tempos que o bip só anunciava que o celular haveria de chegar antes do século terminar, o cuidado para não incomodar  a filha do simpático casal, correspondente internacional, nas suas curtas temporadas em família.

A quarentena traz recordações e notícias do vizinho do térreo.

Impedido de festejar  os 70 anos como gostaria, recebeu os filhos e netos, na rua, da sacada da casa, em outra curva de outra ladeira, no pé do mesmo morro de antes.

E uma belíssima homenagem da filha jornalista, no caderno de cultura d’O Globo, em forma de reportagem e podcast.

A menina toda arrumada que gostava de usar batom, tão nova, contrastando com o jeito e roupas dos pais meio ripongas, visitou a alma do moleque que recusou ficar velho.

Viva Maria.

Vida longa. Vida mansa, Perfeito Fortuna.

Os 70 anos de Perfeito Fortuna, em entrevista à filha, Maria

(Publicação original em 10/06/2020)

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Entre a primeira e a segunda onda da pandemia, Perfeito Fortuna participou da Conversa com Bial, dividindo a telinha com Evandro Mesquita, seu companheiro no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone.

EVANDRO MESQUITA NO CONVERSA COM BIAL

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