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Depoimentos e testemunhos dos que atravessaram a tormenta têm algo em comum.

Uma força que surge quando os músculos não reagem mais, o cansaço triunfa, foge o fôlego e a sensação é de  entrada no túnel da reta final.

Sem luzes; com tênues réstias de esperanças.

E o filme que passa, em reprise, naquele escurinho de abafado cinema pulguento.

Das tarefas inconclusas, as familiares são lamentadas em primeiro lugar.

Para  quem pensava já  ter acabado todas, sempre aparecem mais.

Em flashbacks e trailers.

Mesmo que seja papel  desempenhado na plateia. Espectador da vida perpetuada, no show das gerações sucessivas.

Lembranças dos bons momentos e visões dos que ainda iriam acontecer, não faltam no script.

A fé não costuma falhar.

Transcendental.

Nas ações de todos os santos e ascendentes intercessores.

Muito mais firme do que na Ciência.
Enigmática, questionada e indecisa.

Sintomas repetidos e comuns a retirar, antes da própria por completo, as melhores coisas da vida.

Aromas, sabores e liberdade.

Quem acompanha à certa e cautelar distância,  familiar ou pessoa querida que entra nas estatísticas anotadas nos números da tragédia, também adoece junto.

Tem angústias. Vazios. Insônia.

Antes, estavam todos no mesmo barco, à deriva, susceptíveis, sujeitos à ameaça do padecimento longínquo,  com crenças nas medidas preventivas, comprovadas ou não.

E juntos, na sorte, confiantes.

Iguais,  o medo e a procura por culpados.

Atitude ou transgressão que sentencia quem cai nas garras pestilentas.

Comportamento de risco, relaxamento da atenção ou abaixamento da guarda.

Inventário dos caminhos percorridos. Revisão dos lugares frequentados.

Arrependimento por  ter passado o mal adiante.

A outras pessoas.

À pessoa amada.

Busca pela descoberta do exato local da fatídica ocorrência.

Como?

Onde?

De quem?

Quem não se conteve e fez da campanha eleitoral, pastoril e carnaval.

E não teve dos derrotados,  nas comemorações, clemência.

Quem se estendeu na peregrinação em busca dos regateios nas compras de Natal.

Quem não acreditou nas rezas em contrição, e templos frequentou.

Quem visitou enfermos,  como bom samaritano.

Quem acompanhou de perto a última viagem dos caídos.

E orou no sétimo dia, de joelhos.

Quem no viço da juventude não controlou instintos nem hormônios e são e sarado, virou portador de má notícia.

Quem perseguiu o vil metal como tivesse mais onde guardar ou necessidade de troca.

A via crucis que todos percorrem, contaminados ou não, é igualmente dolorosa.

A contrariada ida para o hospital.

A separação.

Os resultados dos exames,  recebidos como cartas choradas do baralho.

O diagnóstico.  Sabido de véspera, e confirmado sem surpresas.

A última chamada do corredor que leva ao tratamento intensivo e inconsciente.

Torturantes boletins de altos e baixos.

Incontáveis plantões.

Interminável tempo.

Alvíssaras.

Voltou.

Voltou ao quarto.

Voltou à casa.

Voltou à vida.

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