ORA (DIREIS) OUVIR OS MORTOS

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La Toussaint, Dia de Todos os Santos (1888) – Émile Friant – Museu de Belas Artes de Nancy, França.

Não chegou a  perder os sentidos, mas ficou pálida, de espanto, com o nome que apareceu no visor do celular.

De um primo muito querido, falecido há alguns anos.

Naquele átimo entre o toque e o primeiro alô, o pensamento esperançoso que pudesse ser possível alguns minutos de conversa. Suficientes para saber as notícias da vida nova e dar as dos que ficaram. Dizer como tudo continua. E a saudade que é imensa.

A voz da viúva e o mistério da agenda do telefone que não atualizou  o nome do chamador, trouxeram reflexões profundas.

Religiões ocidentais acreditam que as almas dos falecidos continuam solidárias com os que ainda vivem a peregrinação, neste vale de lágrimas.

Relatos e registros de aparições de anjos e santos, fizeram muitos outros santos.

Não é de hoje que as vozes do além são perseguidas.

Thomas Edison, o inventor da lâmpada elétrica, previu que, um dia, o homem seria capaz de construir uma máquina para falar com os mortos.

No século passado, ganhou força a tese que os espíritos poderiam enviar mensagens por meio de rádios, vitrolas e outros equipamentos, nas chamadas vozes eletrônicas.

Em tempos modernos, o ciberespaço é o céu e o aplicativo, seu médium e cavalo alado.

O que antes era conseguido só com muita concentração e fé, ao redor de uma mesa branca, está disponível ao toque do smartphone. As mensagens trazidas pelas entidades e espíritos de trabalho estão até no Facebook.

As mesmas que confortavam e apascentavam os familiares saudosos, são psicografadas, postaras e curtidas. Sempre acompanhadas das melhores fotos.

Uma startup americana, usando elementos de inteligência artificial, construiu, a partir de diálogos antigos no WhatsApp e Telegram, um canal de comunicação em que o falecido responde a perguntas.   

Através de uma rede neural de processamento de antigas mensagens, a conversa é possível. É como se a memória de quem não mais existe fisicamente, fosse replicada para um computador, mantendo-a viva e ativa.

O maior sucesso foi conseguido com a criação do avatar do cantor Prince, quando seus fãs descobriram no app, uma chance de manter viva a lembrança do ídolo.

Missa de sétimo dia.

Ao término da cerimônia,  nas homenagens da família e amigos, um  celular é aproximado do microfone e todos podem ouvir claramente, uma tocante mensagem de conforto, na voz da  pranteada.

Nossos entes queridos não morreram, apenas ficaram invisíveis aos nossos olhos. – Chico Xavier.


(Texto postado, com algumas alterações, em 21/09/2019)

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La Douleur, A Dor (1898)- Émile Friant – Série exposta no Museu de Belas Artes de Nancy, França


Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

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