Do Estadão 

Um dos melhores neurocirurgiões do Brasil, Dr Paulo Niemeyer conta que pesquisas recentes de laboratório mostram que o coronavírus pode penetrar nos neurônios e como está sendo visto nos pacientes.

“O que vemos cada vez mais são os acidentes vasculares cerebrais, os AVCs, associados à covid-19. Não apenas em idosos, mas também em pacientes jovens e, muitas vezes, como primeira manifestação da doença. Isso se deve aos distúrbios da coagulação causados pelo vírus, que lesam as paredes das artérias, desencadeando o processo de trombose”.

Melhores momentos da conversa.

O que a covid-19 tem de diferente de outros vírus?
Primeiro, a rapidez com que se propaga. Depois, ele não tem um padrão, podendo se manifestar de várias formas, como se fossem várias doenças diferentes. Muitos são assintomáticos. Outros perdem o olfato e, consequentemente, o paladar, acompanhado de uma gripe leve, que evolui bem. Por fim, há aqueles que preocupam, em geral obesos ou portadores de outras doenças crônicas, que podem apresentar comprometimento pulmonar e necessitar de UTI e entubação. É como se fossem variações do mesmo vírus ou características genéticas de cada indivíduo, que vão determinar a evolução da doença.

O que de fato o coronavírus faz com o pulmão? As pessoas se recuperam?
Além da inflamação, esses pacientes apresentam distúrbios variáveis da coagulação, que produzem vários microinfartos no pulmão. Aqueles que se recuperam, portanto, podem perder um pouco da sua capacidade pulmonar.

Existe também algum efeito desse vírus no cérebro? 
Pesquisas recentes de laboratório mostram que o vírus pode penetrar nos neurônios, mas isso, entretanto, ainda não é visto nos pacientes. O que vemos cada vez mais são os acidentes vasculares cerebrais, conhecidos AVCs, associados à covid-19.

Isso ocorre apenas no cérebro?
Não, em todo o corpo. O que pode resultar também em isquemia de qualquer outro órgão ou mesmo das extremidades, braços e pernas. O distúrbio de coagulação ocorre em praticamente todos os casos. Parece fazer parte da doença, é considerado como uma das principais causas da lesão pulmonar e da falência respiratória. Todos os doentes, hoje, internados, com covid-19, estão tomando anticoagulantes, em doses maiores ou menores, dependendo dos exames.

E desses casos graves, quantos se recuperam?
Nosso primeiro doente foi internado há 40 dias, aproximadamente, e só agora ele está curando. Até agora, nossa mortalidade tem sido em torno de 25% dos doentes entubados, quase todos acima de 60 anos. Entre os não entubados, a mortalidade foi zero. Observamos também que a obesidade é o fator de risco mais importante para os pacientes jovens.

Agora um tema polêmico, o que acha da cloroquina?
Não se mostrou eficaz, em nossos casos. Suspendemos seu uso por causa das graves arritmias cardíacas que esses pacientes apresentavam, sem nenhuma evidência de melhora.

Quanto ao teste da covid-19 pelo nariz é, de fato, seguro?
Quando ele é positivo ele é seguro, sim, mas quando é negativo tem uma margem de erro de quase 40%. Ou seja, você pode testar negativo e estar contaminado.

Pelo que tem visto, há possibilidade de mutação desse vírus?
Certamente. Pode, inclusive, já haver alguma mutação, e isso explicaria porque alguns casos são mais simples e outros são tão graves. É possível que no próximo ano ele volte mudado, mas com menos força. Teríamos, então, que fazer vacinações anuais, como já se faz para as gripes por Influenza.

Tem que sair uma vacina para a cura, então…
Essa parece ser a única solução. Outra possibilidade de controle seria quando alcançássemos a chamada imunidade de rebanho, que é quando 70% da população já teve contato com o vírus e adquiriu anticorpos.

Sobre o SUS, muita gente está elogiando ante a pandemia. Qual sua opinião?
O SUS foi a coisa mais importante que já se fez no país. Nunca houve um movimento de inclusão social tão grande, no mundo, como o que resultou da criação do SUS. Milhões de brasileiros que se encontravam à margem do serviço social, sem direito a nada, foram incorporados. Acho que está claro a todos que o SUS está sendo fundamental nessa crise e que sairá fortalecido, valorizado.

E o que falta para o SUS? Recursos?
Acho que para melhorar precisaria de mais recursos e de gestão moderna e pragmática.

Sobre a quarentena, já estamos há dois meses em isolamento social, o senhor é a favor?
Sim. O isolamento é um recurso bíblico. Já era utilizado na antiguidade, quando não havia tratamento para hanseníase. Acho que não há outra maneira de conter uma doença infecciosa, para a qual não há tratamento. Agora, como todo remédio, tem seus efeitos colaterais, é preciso saber o momento de reduzir a dose.

Como imagina o mundo pós-coronavírus?
De imediato, teremos 230 milhões de infectologistas no País. Talvez o mundo fique mais humanizado, com as pessoas valorizando a presença e o contato físico. Ainda assim, a crise alavancou a vida virtual, seja social e profissional, de maneira irreversível.

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