PENOSA TRAVESSIA PELOS CAMINHOS DE FÁTIMA

Obra surrealista de bajulador desconhecido (2021)


Neste grande acidente, sem sorte nem precisão geográfica,  às margem da
ria do Potengi, eleita a república sindicalista, a auto-proclamada primeira mulher de origem popular  assumiu o governo prometendo mudanças.

Não se imaginava era o tamanho da ousadia.

Entre seus primeiros atos, a terceira governadora tratou logo de fazer parar o calendário.

Sem uma nova  Inter Gravissimas, aos quinze dias de mandato, repartiu o mês em dois, e restaurou o já esquecido costume do pagamento por quinzena.

Qual uma papisa discípula de Gregório XIII, como estivéssemos em 1582, apagou parte do passado e avançou os ponteiros do relógio para encerrar o mês em sua metade, no esforço para atualizar proventos da nova classe dirigente, ocupante dos cargos comissionados.

Os espelhos retrovisores guiaram a travessia pelos caminhos tortuosos das eleições municipais, livrando a caravana da máquina oficial, de maiores perdas.

A irrupção da grande pandemia que poderia causar desequilíbrio fiscal catastrófico, trouxe o alento de mais de um bilhão de reais  no socorro da União, contabilizado, sem contrapartidas, como benevolência do executivo federal, cantada em versos bem ao estilo e ritmo dos bolsominions.

A economia em hibernação, como por milagre, preservou o equilíbrio da cadeia de produção e consumo.

O volume arrecadado pelos publicanos papa-jerimuns não sofreu retrocessos.

Já no remanso da segunda onda da maré pandêmica, com a marujada esquecida de motins e desacostumada com greves, a capitoa-mor, no alto do mastro, da casa da gávea, anunciava reeleição à vista.

Os fardos mais pesados na carga  da nave-almirante haviam sido jogados ao mar.

Sem o carregamento, o desembarque na terra firme em outubro de 2022, tinha tudo para ser  pacífico e certo.

O 13° de 2018 que já apodrecia nos porões, roído pelos ratos dos juros e agiotas, esquartejado em várias partes, passou a ser distribuído ao léu e arrepio da lei, sem atualização monetária, ao embalo das vagas do mar.

Sem data certa, levadas pela  brisa errante, um dia acabou encontrando as contas bancárias dos barnabés.

Restava, à espera de ser desembrulhado, o pacote com o carimbo desbotado de dezembro de 2018.

O último demônio da herança maldita a ser exorcizado.

No devido tempo, senhor proustiano da razão, o carma dos atrasos salariais, ao contrário de muitos antecessores, será lembrado positivamente enquanto sobreviver  politicamente, a migrante paraibana.

Mas também não a livrará dos maquiavélicos espíritos suínos, que farão de tudo para  incluir no histórico do calendário de pagamentos, a segunda lei de Lavoisier.

É comparando que o povo entende.

Para os alquimistas que transformam índices econômicos e outros números, em votos, no primeiro dia da fatídica gestão 13, o salário do mês imediatamente findo, estava no pendura, atrasado, exatamente um único dia.

Em horas, 24.

Três anos, quatro meses e vinte e quatro dias depois, sob aplausos de 38% do eleitorado, o governo corta a fita inaugural da sua mais vistosa obra.

Já que não restam  salários em atraso, está na hora do governo mostrar também,  o que tem feito para melhorar a vida dos outros 3 milhões e 300 mil potiguares.

Que tal, começar pela Educação? 

A persistência da memória, detalhe (1931) Salvador Dalí – Museu Metropolitana de Arte, MoMA, Nova Iorque


(Com extratos do texto A Persistência da Memória, publicado em 19/05/2021)

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

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