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Reunião de Amigos – Max Ernst (1922) – Museu Ludwig, Colônia

A curiosidade pode até não matar, mas deixa sequelas.

E rostos vermelhos, cringes de vergonha.

O principal erro do bisbilhoteiro é  fazer a pergunta errada, na hora incerta.

O encontro de  quem não se via  desde os tempos da escola, na fila do banco, quando não havia auto-atendimento nem a lei dos 30 minutos, nunca respeitada, acabou  em silêncio sepulcral.

À distância de poucos passos, a impressão era que podia ser um familiar parecido ou sósia de quem imaginava já estar vivendo reencarnado em outras vidas.

Ao se aproximar, a pouca confiança na memória disparou a pergunta sobrenatural, de resposta impossível de ser dada:

Amigo, por aqui?                                                      Você não tinha morrido?

Acompanhante em congresso médico, afeita aos encontros nas atividades sociais, deixou de perguntar aos colegas do marido pelas suas respectivas, depois que um deles foi bem casual:

Inês?                                                                           Depois dela, já se foram Cláudia e Iolanda.

O bando que caminha junto,  no mesmo lugar e hora matinal, é também de ajuda mútua e apoio sóciopsicológico.

As fontes de informações são segmentadas e cada um tem sua  própria expertise.

Polêmicas só na classificação  dos restaurantes. Impossível chegar às listas dos melhores, tantas as discordâncias.

Ambiente, preços, atendimento, tempo de espera, quantidades das porções e o maior peso, se aceita que se leve o varietal da vinícola do supermercado.

E se o cobrado  pela rolha compensa. Sem contar as  cartas que nunca satisfazem enólogos nem enófilos.

A regra é que o argumento custo-benefício não pode mais ser invocado pela total impossibilidade de se consensuar (verbete catalogado no dicionário sindical).

Além das indicações de prestadores de serviços eventuais, encanadores, eletricistas e afins, com referências de trabalhos bem executados e preços em tabelas que não furam os orçamentos, ombros amigos também estão disponíveis para acolher as carências sentimentais. E desabafos.

Quando surgiram os primeiros rumores que havia, na pista, alguém na pista, ninguém ousou perguntar se era verdade o que já se comentava nas ausências atrevidas.

Como ninguém tomou a iniciativa de atualizar   o estado matrimonial do amigo cabisbaixo, a conversa tomou outros caminhos.

Descambou pro futebol e quase morre de overdose de remédios sem comprovação científica.

Antes que o cansaço e a hora chegassem, uma perguntinha inocente, fora do contexto, tirou todas as dúvidas e confirmou o que todos já desconfiavam.

Sem dizer pra que queria saber, alguém  perguntou ao  novo solteirão qual era seu CEP.

Livre, leve e solta, a resposta esclarecedora.

Não sei.                                                                          Há uma semana, estou morando na casa de uma irmã.

60423BB5-33BF-40D1-AA20-02215F042BD2O Chapéu faz o Homem – Max Ernst (1920)

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