POR UM FIO

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Telephone (1961) – Andy Wharol – Museu de Arte Contemporânea (MOCA), Los Angeles

Mesmo com todo o merecimento pelos inestimáveis serviços prestados, o repouso do guerreiro de ébano tem sido negado.

Mais fora de moda que obsoleto, o telefone fixo agoniza, sem direito a um gesto de compaixão.

Relegado a um canto qualquer, esquecido e inútil, não tem direito nem de ser considerado raridade.

Ao ser apresentado a um aparelho com disco e solicitado a fazer uma ligação, um adolescente com cara de nerd, depois de várias tentativas, desistiu. Alegou que as teclas apresentavam defeitos.

Usuário de uma operadora de telefonia, querendo reduzir as tarifas e acabar as ligações do telemarketing, pediu o cancelamento da linha fixa.

Foi informado que já não havia qualquer cobrança pelo seu uso. Mesmo insistindo que desejava cancelar o serviço, foi apresentada a única maneira de fazê-lo:

É só retirar  o aparelho da tomada.

Já é considerada milagre, a sobrevivência de um dos maiores inventos. E não é porque deixou de ser útil.

Continua tão necessário quanto em 1860,  quando o inventor florentino Antônio Meucci, refugiado politico em Nova Iorque, criou um meio de comunicação entre sua oficina, no térreo e o quarto da mulher, imobilizada pelo reumatismo, no primeiro andar da casa.

O italiano não foi muito feliz na escolha do nome da engenhoca.               

Teletrofone.

Sem patente, recebeu como prêmio de consolação,  a glória de ter bolado o precursor do telefone.

Mas somente 113 anos depois de sua morte, em 2002 , quando o congresso americano reconheceu seu pioneirismo.

Quem levou os louros,  a fama e a grana foi o yankee Graham Bell.

No Brasil, chegou com o entusiasmo de Pedro II, depois de ter assistido uma demonstração na exposição de Filadélfia em 1877.

Começou ligando repartições públicas, lojas maçônicas e o quartel do corpo de bombeiros.

Sua expansão deveu-se  à iniciativa privada e à Telephone Company of Brazil.

Sobreviveu ao furor perdulário estatal até ser vencido pelas novas tecnologias e pela privataria tucana.

Seu aperfeiçoamento e verdugo, o telemóvel, não só ganhou enorme popularidade, como demonstra a cada dia que os antepassados entraram em extinção.             

Nas residências, já relíquias. Para peças de museu, um pulo.        

Prevê-se um melancólico final,  com uso restrito ao serviço público. Tal e qual no tempo do segundo império.

Foram necessários mais de 40 anos para que os celulares, criados em 1947 nos laboratórios da empresa  fundado por Bell, chegassem ao público. Mais uma vez, a necessidade fez a ocasião.

Com tantas quedas de postes nos rigorosos invernos, os finlandeses resolveram radicalizar.

Aboliram os fios e bolaram a Nokia.

Depois, a história que todos sabem. Os asiáticos os fizeram menores e os americanos disseram como coreanos e chineses deveriam fazer menores ainda. E o que incorporar aos novos modelos.

E de um alô, fez-se o iPhone.

Não consta nem nas previsões de Júlio Verne. O máximo que imaginou foram os noticiários na TV e as vídeoconferências.

Hanna-Barbera, com os Jetsons, foram mais longe. Anteviram os videofones nos carros voadores e nas telonas das casas do futuro. Cheios de antenas de todos os tamanhos e  formas.

O Brasil continua protagonista nesta história.

Não mais pela visão progressista do seu imperador mas  porque é dos poucos países onde aparelhos roubados, depois de trocados por algumas pedras de crack, seguem em uso.

Smartphone, deixe-o se for capaz

(Você recebeu uma ligação semelhante a este texto em 17/09/2019)

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The telephone II (1930) – Tamara de Lempicka – Coleção particular

 

Domicio Arruda

Aprendiz de Cronista

2 thoughts on “POR UM FIO

  • 22 de setembro de 2021 em 06:30
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    Lição de historia sem reparos. O Urologista aposentado ganhou sabedoria de fazer inveja ao irmão do ramo, Cassiano. Não será perdoado pela História se não registrar tudo em livros.

    Resposta
    • 22 de setembro de 2021 em 07:31
      Permalink

      Professor,
      Tenho que acumular mais lavra antes do garimpo do livro.
      Vou procurar o texto sobre uma figura inesquecível para republicação.

      Resposta

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