Cassiano Arruda Câmara – Tribuna do Norte – 21/10/20

A principal personalidade feminina de Natal na época da 2ª Guerra Mundial, único personagem local a merecer o seu nome grafado na fuselagem de um avião B-25 da Força Aérea Americana, parece condenada ao esquecimento, dependendo da história oral. Por puro preconceito.

Há poucos dias, a governadora Fátima Bezerra anunciou a retomada das obras do Museu da Rampa e Memorial do Aviador, que contará com “aproximadamente, 2.800 m² de área construída, os quais abrigarão salas para exposições, loja, café, auditório, dentre outros, tornando-se importante área vocacionada à realização de eventos – que contarão o papel da Cidade de Natal no pioneirismo da aviação e na criação do correio aéreo da América Latina e ainda sua participação na Segunda Grande Guerra Mundial”. Mas não falou especificamente no conteúdo do museu.

Fátima Bezerra garantiu a conclusão da obra no mês de Dezembro e, em seguida, recebeu o Embaixador dos Estado Unidos e colocando o assunto em pauta, mas pouco, ou nada, se tem falado sobre o conteúdo do museu, Museu que foi oficialmente inaugurado, em 2018, único conhecido no mundo a dispensar um acervo. Mas, assim mesmo, foi inaugurado pelo governador Robinson Faria.

PRESERVAR A HISTÓRIA

É visível a falta de informação sobre o conteúdo do Museu. Do Museu da Rampa, localizado na antiga estação dos hidro-aviões é dito que se propõe a contar a ligação de Natal com a aviação e a 2ª Guerra.

No início da história da aviação, devido à precariedade mecânica das aeronaves e à raridade das pistas de pouso, era comum a utilização de hidroaviões, principalmente nas rotas aéreas que cruzavam longos trechos de oceanos e mares. Por sua proximidade com a África e a Europa, Natal foi escolha natural para sediar uma base.

Em 1930 foi construído o prédio atual. Operavam no local as companhias aéreas Pan American, Pan Air do Brasil e Lufthansa. No final da década de 1930 foi construído o declive que deu nome ao local, a rampa, para facilitar o acesso dos hidroaviões.

A Rampa foi o cenário do célebre encontro dos presidentes Franklin Roosevelt e Getúlio Vargas, em 29 de janeiro de 1943, que definiu a entrada do Brasil na 2ª Guerra, ao lado dos aliados.

A VEZ DE PARNAMIRIM

Enquanto o Museu da Rampa se arrastava (desde o Governo Rosalba Ciarlini), a Prefeitura de Parnamirim foi mais ágil, conseguiu o apoio da Força Aérea Brasileira, e instalou, no terminal de passageiros do Aeroporto Augusto Severo (desativado com o funcionamento do novo aeroporto de São Gonçalo), o Centro Cultural Trampolim da Vitória.

O Centro Cultural restringiu um pouco mais o seu objetivo de ser um museu que destaca a atuação da Força Aérea Brasileira na 2ª Guerra Mundial, ocupando três pavimentos e contando com a doação de dez aeronaves que foram utilizadas pela FAB.

Além da estação de passageiros o projeto é mais amplo na “Ala 10” da Base Aérea e contará com salas interativas de simulação de voos. Sem falar no equipamento comum a esse tipo de equipamento, lojas de souvenirs e artesanato, lanchonete e restaurante.

O Centro Cultural de Parnamirim chegou a funcionar na última alta estação, mas ai veio a pandemia, antes dele ter conseguido se firmar no mercado nacional como uma atração turística de Natal.

DELÍCIA DE GUERRA

A necessidade de Natal agregar sua presença na 2ª Guerra em sua propaganda turística surgiu nos anos ´80, quando esta se tornou sua principal atividade econômica. Com a venda do Nordeste todo como um só pacote, faltava um diferencial em relação as outras capitais. Foi quando se imaginou a possibilidade do surgimento de uma “Casablanca” nordestina, recriando o clima do filme com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

Constatou-se a existência de parte da cidade – especialmente o bairro da Ribeira – praticamente intocada, do jeito que era na época da guerra, e da existência de muitos personagens da época. Até um filme foi realizado pelos cineastas Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda mostrando esse clima.

A “revitalização da Ribeira”, deste então faz parte de todos os planos de governo (inclusive nessa campanha eleitoral) da Prefeitura.
– E os personagens?

Nossa personagem mereceu uma referência nesse filme. Mas o preconceito tem inibido qualquer ação mais consistente. Sobre ela construiu-se uma “aura de mistério”, nas palavras de um historiador.

MARIA BOA

Neste ano de 2020, transcorreu – em 24 de junho – o centenário de nascimento de Maria de Oliveira Barros, Maria Boa, que viveu até julho de 1997. A data centenária não foi lembrada, assim como a personagem vem sendo tratada na história – e na cultura – oficial. Com uma exceção: “O Livro dos 400 Nomes” editado no 4º Centenário da cidade com o registro dos que fizeram a nossa cidade Natal.

Quando se fala de 2ª Guerra em Natal pouco se tem destacado essa personagem que conquistou um lugar na história mesmo sem ter estudado, não ter frequentado os eventos sociais ou ter amigas na sociedade.

Maria Boa chegou a Natal, vinda de Campina Grande, no final dos anos ´30 e teria exercido a sua profissão – a mais antiga profissão – na pensão Estrela, da Madame Georgina. Sabe-se, com certeza, que com a chegada dos americanos, ela sentiu a oportunidade de empreender e criou uma casa de drinks.

E seu estabelecimento tornou-se uma referência. Firmou-se nos anos de Guerra, e depois dela. Funcionou até março de 1995 como uma sala de visitas extra oficial da capital potiguar, inclusive acolhendo autoridades que nos visitavam.

Discreta, vivendo perto da prostituição, ela – que não estudou – se tornou a personalidade feminina da 2ª Guerra em Natal, única a ter seu nome na fuselagem de um avião do Tio Sam. Resta saber se o Museu que pretende preservar a história de Natal continuará a esquecendo.

Deixando de contar a história completa (inclusive de quem virou tema de publicações acadêmicas). Esquecida por puro preconceito. Agora chegou a hora de revelar se no Museu da Rampa, num governo assumido “popular” Maria Boa terá direito a uma sala ou – pelo menos – uma citação. Ou continuará interditada pelo preconceito.

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