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Il Grido Giallo (O Grito Amarelo), Jorge Guinle, 1986

Fosse país independente, o Nordeste estaria voltando das Olimpíadas com mais medalhas de ouro que o resto do Brasil.

É tempo de se falar de um preconceito, presença disfarçada de simpatia, nas conversas das mesas redondas que esperavam o fuso horário passar.

Quem nunca foi chamado de paraíba, baiano ou nortista é porque nunca esteve pr’as bandas do sul maravilha.

Se não há movimentos, ninguém se reúne em concentrações ou segue passeatas de protesto, é que todos que saíram das suas terras adoradas têm um único propósito.

Um dia, chegar lá.

E voltar pra contar como é bom, tudo o que deixaram por aqui.

De preferência com uma medalha olímpica pendurada no pescoço, para mostrar a todo mundo, do alto de um carro dos bombeiros, a prova do sucesso nas terras sudestinas.

O cenário não pode ser mais adequado para refletir a vitória na selva da metrópole, que o Parque Guinle.

Um dos mais charmosos lugares do Rio, residência da família que deixou marcas na vida social, econômica e cultural da ex-capital.

Imigrantes franceses  que souberam fazer o mundo novo no início do século XX.

Banqueiros e industriais, dos mais bem sucedidos.

Ao falecer em 1914, o patriarca Eduardo tinha um patrimônio avaliado em mais de 10 bilhões de dólares.

Fundadores da Companhia Docas de Santos e do Fluminense Football Club.

Seus empreendimentos mais icônicos, o Hotel Copacabana Palace e as conquistas amorosas de Jorginho, o playboy do clã, com fama de Casanova e  no curriculum, Marilyn Monroe, Rita Hayworth, Jane Mansfield, Kim Novak e outras não menos desejadas.

Sob a batuta de mestres do  naipe de Lúcio Costa e Burle Marx, o espaço unifamiliar foi dividido.   

A mansão, projetada por arquiteto francês, virou o palácio e residência do governador.

Décadas e muitas propinas depois, quem iria imaginar, seus mais recentes inquilinos trocando o aristocrático endereço por outro, igualmente afamado, em Bangu.

Nos jardins,  surgiu um sofisticado empreendimento imobiliário do mais alto padrão e bom gosto.

Nos anos 40 um paraíba de Caruaru fez fortuna. Com muito trabalho e uma lojinha de couros na Senhor dos Passos.

Seu negócio, comerciar os produtos dos curtumes dos irmãos, igualmente prósperos, em Campina Grande e Natal.

Casado com moça tijucana da gema (tia de Sérgio Mendes), seguiu seus conselhos e o tino comercial para investir  na compra de um apartamento dos sonhos na bucólica Laranjeiras.

Em um dos seis prédios em estilo neoclássico erguidos no sopé de morro, entre exuberantes árvores, olhos d’agua, riachos e jardins. Das mais exclusivas e luxuosas moradias da elite carioca.

Com o baita ap e flanando de  mercedes , não tinha como não ser o exemplo mais eloquente e invejado de migrante vitorioso.

O irmão caçula, depois de enfrentar penosa viagem de seis dias, em boleia de caminhão, também chegou ao paraíso.

Para curta temporada. Hóspede do magnata dos couros e tanantes.

Depois de desfrutar dos melhores passeios, restaurantes e espetáculos dos teatros de revista, muito a contragosto retornou ao agreste pernambucano e a todas as dificuldades da vida dura de campesino.

Nada que pudesse se comparar com a do primogênito da prole de vinte e quatro nascidos e treze sobreviventes.

Dos parentes, ávidos por notícias, das novidades da cidade grande e de quem estava se dando tão bem de vida,  no meio de um garajal de perguntas, a óbvia.

O que o tinha impressionado mais.

Ninguém esperava que tivesse sido o banheiro da suíte onde foi cinderelo por uma semana.

Era tanto espelho, tanto espelho, que quando terminava o serviço, não sabia qual furico limpar primeiro.

 (A enxertia deste texto foi publicada em 8/8/2019)

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A Esfinge Vermelha, 1983

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Rock Dreams, 1985

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Nos Confins da Cidade Muda (homenagem a Man Ray), 1984

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O Ano do Dragão, 1986

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Macunaíma, 1986

Jorge Eduardo Guinle Filho, pintor, (1947-1987)

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