21020109_20130717094238197Carlos Emerenciano
Arquiteto e advogado

O bailarino argentino Jorge Donn executa uma coreografia ao som do Bolero de Ravel, no Trocadero, em Paris, com a Torre Eiffel ao fundo.

De repente, sem que haja interrupção na música, a cena é outra e duas bailarinas se apresentam diante de jurados para saber quem será escolhida protagonista de uma peça musical.

A partir daí, a trama se sucede e os personagens e seus dramas são apresentados.

Retratos da vida (Les Uns et Les Autres, 1981), dirigido pelo francês Claude Leloch, é um filme de raríssima sensibilidade. Narra a história de quatro famílias de países diferentes (EUA, França, Alemanha e União Soviética), a partir do período entre guerras.

A ligação entre elas é a música. Fatores alheios a cada uma das famílias interrompem sonhos, como ocorre com o início da Segunda Guerra Mundial.

No filme, apesar das dificuldades de cada um, o diretor procura nos elevar, mostrando através de retratos que o ser humano tem um destino glorioso. A mensagem é de esperança e o caminho para a superação é a arte.

Lembrei da obra de Leloch, que tanto nos encantou, ao observar alguns personagens do cotidiano. Nem sempre a relação é direta, como vocês vão notar. Existem mais mecanismos na nossa memória “do que supõe a nossa vã filosofia”.

Como diz o Eclesiastes, “não há nada de novo debaixo do Sol”.

O ser humano, apesar das particularidades de cada época e de cada cultura, é um só na essência e compõe esse mosaico histórico em busca da luz. Seja através da arte, da educação ou da fé.

Viajo, então (sem sair de casa), para o Vale do Swat, no Paquistão, terra de Malala Yousafzai.

Recentemente, li uma pequena biografia de Malala, lançada pela Folha de São Paulo, para a minha filha Liz, de seis anos. Me impressionei com a identificação instantânea dela com a personagem. Liz vibrava com as histórias da menina paquistanesa, que não se dobrou ao regime Talibã e nunca deixou de buscar o conhecimento e realizar os seus sonhos. Entristeceu-se com o brutal atentado do qual Malala foi vítima, em 9 de outubro de 2012, quando tinha apenas quinze anos, dois anos antes de ser premiada com o Nobel da Paz, “pela sua luta contra a supressão das crianças e jovens e pelo direito de todos à educação.

Percebi que através da leitura, a minha filha empolgava-se e emocionava-se. Vivia intensamente a história.

O vínculo que estabeleço aqui com personagens de épocas distintas e recantos diversos, diferentemente da música no filme de Claude Leloch, é a educação. E também a fé e o amor pelo próximo.

A educação que transformou a vida da inspiradora menina paquistanesa, hoje uma ativista pela universalização do ensino e mais particularmente pelo seu acesso irrestrito às mulheres.

Outra história comovente é de um belga radicado em Natal.

O Padre Tiago Theisen, que se encantou no último dia 9. Logo que chegou na nossa cidade em 1968, o então jovem sacerdote iniciou o seu trabalho de evangelização e educação que floresceu ao longo do tempo. A sua fé o fez atravessar o Atlântico para se estabelecer entre nós. E amou a todos nós, como deixou registrado em carta, incondicionalmente.

Conseguiu criar 34 jardins para alfabetizar crianças carentes. A sua ação ia do bairro das Quintas, na Zona Oeste da cidade, passando por toda a Zona Norte e chegou a municípios vizinhos a Natal.

Fico imaginando quantas vidas foram tocadas pela ação desse santo homem, que dedicou a existência a fazer o bem.

Seja através da arte, da educação, da fé e de ações transformadoras, retratos da vida que nos dão esperança.

Deixe um comentário